Acompanhámos o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães na sua primeira passagem por terras croatas, e, por dois dias, também fizemos fez parte deste retrato de família. Uma família em breve reunida em terras lusitanas.


O encontro estava marcado no aeroporto de Veneza, onde os Madredeus chegariam depois de um concerto em Espanha. Da cidade dos canais e dos gondoleiros, a travessia até Pula, uma cidade no sul da Croácia, seria feita de carro. E, num ápice, todo o conceito dos Madredeus estava exposto: um grupo móvel, que meia hora depois de aterrar já está na estrada. Era esse o grande objectivo que levou Pedro Ayres Magalhães, então com Rodrigo leão, a imaginar uma banda que fosse quase portátil. Os Madredeus, mais de uma década depois, são a concretização desse sonho -- um grupo de pessoas, que tem em comum uma linguagem musical, tida como única. E que expõe essa linguagem no formato mais simples, e por isso mesmo mais atraente, sem grandes alaridos nem efeitos. Os Madredeus são a alma daqueles músicos... Fui recebida como se de uma velha amiga se tratasse, com a satisfação de se falar português, apesar dos músicos falarem um pouco de quase todas as línguas como reflexo das suas viagens. À medida que a noite avança, vai-se conversando. Os Madredeus funcionam como um submarino, que vai navegando por águas profundas, fechado em si, mas sempre disposto a vir à tona para absorver mais e mais...


O mapa do tesouro

Os portugueses têm tido alguma dificuldade em lidar com o sucesso internacional dos Madredeus, com as notícias de grandes conquistas pelo mundo fora. No fundo, perderam o hábito que tornou os portugueses nos grandes conquistadores de outros séculos. Aqui, tal como dantes, o público mantem-se céptico, quase descrente, de que tudo seja de facto realidade. Ao invés, preferem acreditar em monstros Adamastores, que transformam o sucesso exterior numa ilusão criada por quem muito quer acreditar. Mas assim não é. A grande diferença é que os Madredeus, ao contrário dos navegadores, não regressam a casa em apoteose, não trazem grandes tesouros ou riquezas, porque afinal, a sua grande riqueza já partiu com eles, uma portugalidade única na sua música e na sua postura. Tão única que acabou por se tornar universal. É esse o seu grande tesouro, um tesouro que não pára de ser trabalhado.

O dia seguinte à chegada a Pula, apesar de designado como «livre», foi marcado por uma conferência de imprensa e muitas entrevistas. Esta é a primeira vez que os Madredeus se deslocam à Croácia, é importante dar a conhecer quem é a banda. Pedro Ayres refere que esta «é uma música para viajar», e que já permitiu que os músicos viajassem por mais de vinte e um países. As suas melodias não são académicas, são antes influências dos sítios por onde andaram. «Tocamos em todos os países do mundo e acabamos por ser, através da música, uma espécie de sacerdotes -- é o que respondo quando um jornalista me pergunta porque é que fomos tocar a Belgrado, quando a Sérvia é inimiga da Croácia. Mas tocamos em Israel e na Alemanha, no Japão e nos Estados Unidos. Somos uma espécie de padres, que vimos falar de coisas que não têm nada a ver com os desaguisos dos povos. Vimos falar da esperança, da boa-vontade, de coisas que não têm nada a ver com os desacatos dos povos», explica Pedro Ayres.


Apesar de terem uma mensagem universal, a verdade é que a principal marca dos Madredeus prende-se com uma intensa portugalidade, que excede a utilização exclusiva do português. «Nos países que não entendem português, muitas vezes traduzimos as letras. E onde vamos, mesmo no Brasil onde há aquela ideia de que os portugueses não são entendidos, tocamos sempre nos grandes teatros. É uma coisa incrível. É como em Espanha. Vais a Espanha ver um concerto nosso e ficas embasbacada com a reacção, como eu fico», afirma o guitarrista.

Uma vez que os Madredeus não são uma banda conhecida na Croácia, o grupo português foi agendado para tocar num dos dois anfiteatros romanos existentes na região. Com medo de uma fraca adesão, a organização optou por colocar o grupo no menor: o espanto foi total, quando os bilhetes, os três mil postos à venda, esgotaram num ápice. Para Pedro Ayres, esta sucessão de acontecimentos não é novidade: «Vamos tocar um concerto novo, que para nós já é o quarto mas para eles é o primeiro porque nunca viram um concerto de Madredeus. Daqui a dois anos voltamos cá e é como já ouvimos dizer, que não viríamos ao teatro pequeno mas ao grande. Entretanto as pessoas já conhecem os nossos discos e ouvem a nossa música. É uma coisa incrível. Como é que um grupo destes, que veio do rock como nós viemos, há três dias estava no Luxemburgo a tocar num festival de música clássica, e quem tinha estado no dia antes era a Orquestra Nacional da Bélgica...»


A rota da música

De desconhecidos, os Madredeus tornaram-se numa década num ponto de referência em muitos países, tendo passado pelas maiores casas de espectáculos do mundo. Com os discos editados um pouco por toda a parte, os Madredeus ganham uma carreira de continuidade, em que se mantêm fiéis ao que os levou a fazer música, mas sempre com originalidade. Os instrumentos usados foram mudando, os músicos também, mas as temáticas mantiveram-se, aquelas que distinguem o ser português. «Durante a década de 90, o que é extraordinário é um grupo destes, que chega a uma fase de curiosidade/revelação, passar a uma fase de afirmação e de permanência durante dez anos, em que continua a ser um grupo de vanguarda, a mostrar música nova, não tem que andar sempre a tocar os êxitos. A Teresa, que na altura era uma jovenzinha, agora tem 30 anos e é considerada uma das vozes do mundo». Mas uma década depois, o inesperado continua a ser uma constante. «De Belgrado ao teatro dos Campos Elísios, é sempre uma coisa inesperada, porque não é uma música standard. Se chegares ao Louvre, e vires uma orquestra barroca a tocar nos jardins, cada uma das pessoas que passa reconhece. Isto não acontece com Madredeus. E os tipos que passam ficam a ver e a pensar, que música é esta? E ficam ali a descobrir. Mas já ficam lá há dez anos», conclui Pedro Ayres.

A passagem das tormentas

Qual grupo tridimensional, para a verdadeira existência dos Madredeus estar completa falta, porventura, um dos seus elementos mais importantes. A sua música fala de imagens -- sonhos, ilusões ou vivências expressas não só nos temas mas nos próprios músicos, na forma como falam daquilo que a música dos Madredeus já lhes permitiu viver. São essas imagens que transpõem para os discos, que se tornam momentos únicos nos seus concertos. O lado visual, para Pedro Ayres Magalhães, principal compositor da banda, «é importantíssimo. Porque o próximo disco dos Madredeus, tal como o último, "O Paraíso", e talvez até o anterior, "O Espírito da Paz", já são discos feitos em português, sim, mas num português traduzível. A tradição portuguesa é diferente da dos outros países por uma razão simples, é uma tradição de pessoas que saíram do seu país. Essa é a tradição maior de Portugal, a de pessoas que se deram bem e que se imiscuíram com outras. Essa abertura é que está presente na nossa música. As canções que se faziam na altura do "Existir" já tinham essa ideia teórica de serem um assunto para exibir -- o disco tinha esse duplo sentido, o de ser o existir do nosso grupo e a maneira como Portugal existe. A partir do momento em que nos fartámos de tocar em todo o mundo com essa música, já não queria que o meu grupo fosse apresentado como étnico. Porque ao fim de dois ou três anos de viagens, qualquer tipo tem um mínimo de tacto para ver qual é o seu lugar no mundo. Se hoje pegares nas canções do grupo e as tentares traduzir noutra língua consegues, porque já as penso em todas as línguas». Ao contrário de experiências unas, pessoais e indissociáveis do grupo, Pedro Ayres compõe agora a partir de imagens que poderão ser comuns a qualquer pessoa, independentemente do seu local de origem, nacionalidade ou credo. «Não acho que as canções sejam uma coisa absoluta: podem ser, mas no caso de um grupo experimental como o nosso, devem ser adequadas à cantora. A Teresa, no palco, não é a Teresa, é uma figura, quase como se fosse um libreto de palco. Ela é uma cantora de Lisboa que anda a cantar pelo mundo inteiro. Veste-se com aqueles vestidos, e é como se não pertencesse a lado nenhum. E as canções que ela canta têm essa coisa também: são em português, mas se alguém for ver o que é que querem dizer, percebem (e é isso que os deixa embasbacados!) perfeitamente o que queremos dizer, porque não estamos a falar de nenhuma singularidade portuguesa. Estamos a falar de um património universal, mas em português», continua.

As viagens, no entanto, são uma constante nas temáticas da banda. No «Espírito da Paz», é descrita a viagem de um grupo musical no mundo, de forma metafórica; em «Ainda», todas as canções são para viver com as imagens de Lisboa, expostas no filme «Lisbon Story», de Wim Wenders; em «Paraíso», as imagens são novamente as de «Existir» só que num teatro dourado. «"O Paraíso" é um disco que representa quase a imagem do máximo de requinte de um grupo, digamos, não académico. E essa música é para ser ouvida nos sítios onde tocamos. Em "Paraíso", quase pela primeira vez, cada canção pode ter uma história adequada à história de Madredeus» -- uma experiência repetida no próximo álbum da banda, já gravado mas apenas com edição marcada para o próximo ano. «Neste álbum que escrevemos agora, voltamos a um disco virado ainda mais para a história do nosso grupo. A música é melhor, mais elaborada e tem mais ritmo, porque tocamos melhor ao longo de todos estes anos. Vamos melhorando. E quase todas as canções são de viagens».

«Movimento» -- assim se chamará o próximo disco dos Madredeus. «Movimento» é a razão que tem feito os Madredeus viajarem pelo mundo na digressão deste ano. Um disco que mistura melodias do mundo, com as palavras em português. Um disco de ritmos universais, de quem paira pelo mundo, absorvendo as envolvências, misturando-as com o seu ser original. Será porventura esse o grande movimento. «A Teresa é posta em posições de viagem, e é por isso que se vai chamar "Movimento". Uma coisa é estar-se parado num sítio, isolado, a pensar no que é que poderia ser bom para o futuro de Portugal; na altura em que começámos, era legítimo pensar que grupo iríamos fazer, era tudo perguntas. Nesta altura, já não pode ser assim. Vivemos a fase das respostas, porque todas as perguntas que fizemos no passado foram respondidas pela nossa actividade, pelas viagens, pela atenção do público tão diverso. Sempre tivemos a ideia de que se deve viver viajando, porque assim conheces o tempo, o teu tempo, e vives com uma transferência alargada, quase planetária. Sempre sonhámos fazê-lo com a música. Hoje, quando falas connosco, estás a falar com pessoas que sonharam fazer uma coisa e que já a fizeram. É um sonho que se cumpriu. Neste momento, estamos a tactear, pensando como é que podemos estabilizar neste movimento permanente. E as canções são essa reflexão sobre o movimento, como alguém que está em cima de uma bicicleta -- a capa do próximo disco vai ser uma bicicleta. Quando estás a andar de bicicleta, não estás a andar muito depressa, sabes é que não estás parada. Hoje em dia já não começamos nenhuma viagem. A viagem dos Madredeus, nove anos depois de ter sido começada, já foi feita, e refeita e repetida. Portanto, a música que fazemos hoje é a nossa. Já não falamos de um conceito de saudade. Não, falamos da própria saudade que já sentimos, das pessoas de que gostamos, das coisas que lembramos. As viagens que fazemos reflectem-se na música. Ficamos com a certeza de que em todo o lado pode existir um mundo de nações, mas há um mundo de música, que é um bocado maior do que o mundo das nações. Como o mundo das religiões, o da música vai muito além das nações, por ser universal». É esta a fase das concretizações, aquela em que os sonhos se realizaram, em que novas metas vão sendo estabelecidas. Como em qualquer família, os Madredeus vão optando por rumos diferentes. Vão seguindo na estrada do Paraíso, teimando em existir. Ainda. Os Dias da Madredeus, hoje, são de movimento. Imbuídos de um enorme espírito de paz, um espírito que quase se consegue respirar, seja na tranquilidade quase irreal de Teresa Salgueiro, ou na sede voraz (ainda) de Pedro Ayres cumprir aquilo a que se propôs: levar o seu grupo portátil mundo fora. Vezes sem conta. Num eterno retrato de família.

Artigo de Ana Ventura
Blitz, Novembro 2000

 

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