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Há
treze anos, Teresa Salgueiro entrou numa "grande aventura",
chamada Madredeus, à qual, e desde então, ficou a dever a própria
formação de grande parte da sua personalidade. Desde os 17 anos que a
sua vida é preenchida com um projecto que revolucionou, inclusivamente,
a marcha das bandas em Portugal. Nesta entrevista, a cantora fala sobre
o que deixou para trás e qual será o caminho a seguir daqui em diante.
Longe de uma infância em que brincava aos festivais da canção, não
parou, contudo, de sonhar com música e com o reconhecimento do público.
Afinal, é este que dá sentido ao esforço de um artista. Com o
decorrer dos anos, a sua vida mudou. Ao engravidar de Inês, hoje com 19
meses, e a melhor experiência da sua vida, o ar despreocupado da
cantora deu lugar a uma mãe atenta. Em
alguns casos, a perda de anonimato implica também uma mudança de
identidade. Como foi no seu caso? Teresa
Salgueiro –
Nos últimos anos passei muito tempo a viajar, pelo que nunca pensei
muito na perda de anonimato. Ultimamente já sinto mais que sou
reconhecida. Gosto que as pessoas gostem de me ouvir, e quando me
reconhecem expressam-se sempre de forma carinhosa. O resto, é uma questão
de gestão da vida pública e privada. Todas as pessoas têm uma
personagem social. É o chamado teatro da vida. Algumas pessoas têm
apenas mais exposição pública que outras. No meu caso, e dos
Madredeus, trata-se da construção de uma personagem criada, ao longo
destes 13 anos, por mim e pelos músicos. Em palco desenrola-se uma história
que não é a minha. Em
que pensa quando está em palco? Teresa
Salgueiro –
Estar
em palco é viver um momento de comunicação muito particular com o público,
em que dou o meu melhor por forma a transportar até ele aquilo que
sonhamos. Tinha
17 anos quando entrou para o grupo. Até que ponto a própria banda foi
responsável pela formação da sua própria personalidade? Teresa
Salgueiro –
Dos
20 aos 30 anos, que é uma parte muito importante da formação, a minha
vida foi passada com o grupo, pelo que é normal que a personalidade se
vá formando, pois julgo que não é tão estanque quanto o carácter de
uma pessoa. Nunca tinha feito projectos muito sólidos para ser cantora.
Sempre cantei desde pequena. As brincadeiras, com as minhas amigas,
passavam sempre pela organização de festivais da canção, que na
altura se viviam com muita intensidade, mas nunca disse: "Eu
quero ser cantora." De facto, tive uma grande sorte que virou
totalmente a minha vida. Quais
eram as suas grandes referências musicais nessa altura? Teresa
Salgueiro –
Na altura tinha descoberto o fado, que permaneceu, até hoje, uma grande
paixão para mim. Cantava temas de bossa nova e da música popular
portuguesa. Essas eram as minhas referências mais fortes. Foi uma feliz
coincidência ter descoberto um grupo que fazia uma música com a qual
me identificava. Para além do facto de ter constituído família, o
ponto central da minha vida tem sido a vida dos Madredeus. Quando olho
para os primeiros temas que interpretei sinto um enorme carinho. É
impressionante a distância e a atitude, tão diferente dos dias de
hoje. Também há coisas que hoje ouço e das quais não gosto nada, mas
sei que eram o mais sincero possível. Como
era a Teresa de então? Teresa
Salgueiro –
Era muito entusiasta e sonhadora. Acreditei completamente nesta aventura
e entreguei-lhe toda a minha vida, mas também foi numa idade em que não
poderia deixar de acontecer. Não tinha mais nada para além da música.
Era mais despreocupada do que sou hoje. O
preto foi uma cor que adoptou para a banda? Teresa
Salgueiro –
Já usava no dia-a-dia, e continuo a usar muito. Se bem que em palco
seja menos recorrente. Sempre achei a nossa música muito pictórica,
aponta muitos caminhos, fala de muitas cores e paisagens. Uma cor é o
indício de qualquer coisa, mais do que a ausência dela, e o preto não
é cor, é a ausência dela. Já tenho ouvido falar em ‘animais de
palco’ (risos), eu não me considero isso, apesar de perceber a
expressão e achar que certas pessoas nasceram para estar em cima de um.
O palco tem sido ao longo dos anos uma conquista. Jeans
e t-shirts ficaram irremediavelmente guardados num baú? Teresa
Salgueiro –
Nunca me senti muito bem com Jeans e t-shirt, mas ando de
ténis e visto-me do modo mais prático possível no dia-a-dia. Se
calhar, por isso, visto-me de preto porque é fácil. Quando se tem uma
exposição pública grande, o preto acaba por ser uma cor fácil que
fica sempre bem. Não ando sempre vestida de preto, é mais no Inverno. Ouvindo-a
falar do seu percurso, parece que nunca teve de fazer sacrifícios, que
tudo se foi encaixando. Já teve fases menos boas? Teresa
Salgueiro –
Tive sempre de fazer uma escolha, mas a minha opção foi sempre muito
clara: ter o privilégio de poder cantar e de viajar pelo país e por
outras culturas. As coisas têm sempre o seu peso. Nunca se tem tudo, e
sei que ao partir deixo coisas para trás. Mas parto com o meu
entusiasmo e também com o daqueles que ficam, porque tenho o apoio dos
meus pais e também da família que entretanto constituí. Houve uma
altura em que eu e o Rui, o meu marido, não conseguíamos,
organizarmo-nos por forma a ser maior a nossa permanência em casa, mas
agora tanto eu como ele e o próprio grupo temos vindo a moldarmo-nos em
torno destas relações. Nem sempre é fácil, mas sempre tive o maior
apoio e entusiasmo do meu marido e da minha família. Sempre entenderam
até que ponto tudo isto era extraordinário. Não
entrou em pânico quando soube que ia ser mãe, tendo em conta os calendários
dos espectáculos e novos discos? Teresa
Salgueiro –
Vivo muito um dia após o outro, e só assim tem sido possível viver até
agora e gerir a minha entrega ao grupo. Quando soube que ia ser mãe
percebi que iria ser difícil, porque era a introdução de um factor
completamente novo e exterior, mas da parte do grupo recebi a maior
compreensão e tenho podido levar a minha filha nas viagens. Penso que
ela também me ajuda a organizar-me interiormente, e vou percebendo, à
medida que ela cresce, que opções tomar para continuar a corresponder
às suas necessidades. Como
será quando ela tiver de se fixar numa escola? Teresa
Salgueiro –
Eu escolhi ter filhos e não o contrário. Estou ciente de tudo isso.
Sei que vai haver uma altura em que ela não me poderá acompanhar.
Nessa altura, espero poder acompanhá-la o melhor possível e
estabelecer o equilíbrio entre as minhas necessidades e o meu trabalho.
Tenho-o conseguido gerir no limite, mesmo antes de ser mãe. Mesmo para
o meu trabalho é um acréscimo, porque me obriga a saber, cada vez
mais, quem eu sou através da minha filha. Claro que tenho muitas dúvidas
que todas as mães passam, mas sei que a minha filha só me trouxe
coisas, não me veio retirar nada. É a melhor experiência que eu vivi
até hoje. Como
é a sua relação, enquanto mulher, num grupo de homens? Teresa
Salgueiro –
É evidente que há sempre conflitos de interesses e o grupo existe
dentro da disponibilidade de cada um. Até hoje, sinto-me completamente
apoiada. Quando percebo qual é o meu ponto de equilíbrio e o consigo
comunicar aos outros, ele é completamente respeitado. Não se pode ter
um grupo que viaja para todo o lado e ter todas as outras coisas. Tenho
de me moldar às pessoas e ser humilde para trabalhar em grupo. É uma
grande aprendizagem. Mesmo tendo de pôr muitas coisas de lado, a
vontade de continuar é mais forte. O
seu próprio sucesso leva-a a ficar longe da família. Até que ponto
vale a pena? Teresa
Salgueiro –
Vale
completamente a pena, enquanto eu sentir esta vontade e este entusiasmo,
porque a vida – que é uma dádiva enorme – é limitada no tempo e
as pessoas têm sonhos a cumprir ou que, pelo menos, têm a obrigação
de perseguir. Vale a pena continuar a cantar, mas tendo sempre presente
aquilo que também é importante: ser mãe, ter filhos e estar com
aqueles que escolheram ficar comigo. Tenho toda a compreensão do meu
companheiro, caso contrário era impossível continuar. O meu marido
partilha deste entusiasmo, e estou ciente de que não é à primeira que
as pessoas compreendem todas as implicações envolvidas. Eu não tenho
um tipo de vida padrão que seja facilmente comparável com outro, mas
ainda bem... Para mim, estar vivo é um privilégio muito grande. Mais
ainda é poder comunicar aos outros alguma coisa boa. Esses são
momentos muito especiais. Felizmente, estou casada com uma pessoa que
compreende isso, até porque é poeta e porque me conheceu através da música.
Já sabia muito bem com quem estava a lidar. Evidentemente que tudo é
equacionável, mas penso que a vida é uma constante pergunta, demanda. Caras, 3 de Junho de 2000
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