S a n t a  M a r i a  d a  F e i r a
Setembro de 1999

No escuro da noite surgem imagens
que se reflectem nas muralhas antigas de um castelo.
A sombra invade a luz
mas há sons soltos na noite
que iluminam a alma
e transpõem as fronteiras do pensamento.

Quando a noite principia os silêncios regressam, e por entre as árvores nascem sombras absolutas descobrindo novas forças que sustêm as pedras que tecem os muros de um castelo. Sente-se o tempo, o que passa nesse instante de contemplação e o que passou, o presente e o passado unidos pelo mesmo olhar.

O futuro, esse nem o castelo nos consegue ditar, nem uma miragem do que virá transparece das paredes grossas da fortaleza. São demasiadas as dúvidas do presente, incertezas que rapidamente se transformam na certeza de que não haverá futuro. Mas há quem resista, quem tente resistir, quem acredite que é possível passar essa barreira indomável entre o passado e o futuro, sobreviver ao tempo como as paredes de um castelo.

A música também sobrevive ao tempo, pelo menos aquela que nos faz sentir, que nos conta uma história, que nos narra a vida como um sonho, como um nunca acabar de emoções, esperanças e vontades. Só essa transpõe o tempo, só essa pode ser tocada num castelo, num castelo como o de Santa Maria da Feira. A música dos Madredeus enquadra-se perfeitamente num cenário como o deste castelo de que vos falo porque tal como ele perdura no tempo.

"Recital", o concerto que os Madredeus apresentaram no castelo de Santa Maria da Feira, numa noite límpida de Setembro, entre muralhas e sob um céu estrelado, é bem a prova disso. Temas antigos do grupo, remodelados após a saída do acordeão (Gabriel Gomes) e do violoncelo (Francisco Ribeiro) e da entrada do baixo acústico (Fernando Júdice) e nalguns temas da guitarra clássica de José Peixoto, enquadram-se perfeitamente com o repertório mais actual. Para esta renovação há que referir também Teresa Salgueiro, que de forma sublime conferiu a esses temas uma nova interpretação, dando-lhes uma nova vida. "Ajuda" é talvez o melhor exemplo dessa renovação, o melhor e o mais nítido, tendo obtido um novo brilho com o novo arranjo e com a nova interpretação de Teresa Salgueiro.

É difícil descrever tudo o que se passou durante o "Recital" no castelo de Santa Maria da Feira. Emoção, sentimento, silêncios transformados em sons, tristeza, alegria, um misto de sentimentos cruzando a noite, num castelo ao serviço da música, pronto a desmoronar-se assim que os sons se recolhessem, o sonho em choro partisse e o desejo de repetição nos assolasse.

Sérgio Freitas, Setembro 1999

 

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