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S
a n t a M a r i a d a F e i r a
No
escuro da noite surgem imagens Quando
a noite principia os silêncios regressam, e por entre as árvores
nascem sombras absolutas descobrindo novas forças que sustêm as pedras
que tecem os muros de um castelo. Sente-se o tempo, o que passa nesse
instante de contemplação e o que passou, o presente e o passado unidos
pelo mesmo olhar. O
futuro, esse nem o castelo nos consegue ditar, nem uma miragem do que
virá transparece das paredes grossas da fortaleza. São demasiadas as dúvidas
do presente, incertezas que rapidamente se transformam na certeza de que
não haverá futuro. Mas há quem resista, quem tente resistir, quem
acredite que é possível passar essa barreira indomável entre o
passado e o futuro, sobreviver ao tempo como as paredes de um castelo. A
música também sobrevive ao tempo, pelo menos aquela que nos faz
sentir, que nos conta uma história, que nos narra a vida como um sonho,
como um nunca acabar de emoções, esperanças e vontades. Só essa
transpõe o tempo, só essa pode ser tocada num castelo, num castelo
como o de Santa Maria da Feira. A música dos Madredeus enquadra-se
perfeitamente num cenário como o deste castelo de que vos falo porque
tal como ele perdura no tempo. "Recital",
o concerto que os Madredeus apresentaram no castelo de Santa Maria da
Feira, numa noite límpida de Setembro, entre muralhas e sob um céu
estrelado, é bem a prova disso. Temas antigos do grupo, remodelados após
a saída do acordeão (Gabriel Gomes) e do violoncelo (Francisco
Ribeiro) e da entrada do baixo acústico (Fernando Júdice) e nalguns
temas da guitarra clássica de José Peixoto, enquadram-se perfeitamente
com o repertório mais actual. Para esta renovação há que referir
também Teresa Salgueiro, que de forma sublime conferiu a esses temas
uma nova interpretação, dando-lhes uma nova vida. "Ajuda" é
talvez o melhor exemplo dessa renovação, o melhor e o mais nítido,
tendo obtido um novo brilho com o novo arranjo e com a nova interpretação
de Teresa Salgueiro. É
difícil descrever tudo o que se passou durante o "Recital" no
castelo de Santa Maria da Feira. Emoção, sentimento, silêncios
transformados em sons, tristeza, alegria, um misto de sentimentos
cruzando a noite, num castelo ao serviço da música, pronto a
desmoronar-se assim que os sons se recolhessem, o sonho em choro
partisse e o desejo de repetição nos assolasse.
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