"Em todas as línguas as pessoas dizem «nunca acabem»."

Chama-se "Movimento" e é o novo álbum dos Madredeus, quatro anos depois de "O Paraíso". Com edição prevista para 09 de Abril, é este conjunto de 16 novas canções que Teresa Salgueiro, Pedro Ayres Magalhães, José Peixoto, Carlos Maria Trindade e Fernando Júdice vão apresentar em Lisboa e no Porto – durante seis datas em cada uma destas cidades – antes de voltar à estrada. Antes disso, o NetParque foi ao encontro de Pedro Ayres Magalhães, o mentor do projecto que, ao longo de 15 anos, tem levado a música portuguesa aos quatro cantos do mundo.


Para quem ainda não conhece o novo álbum, como descreve o "Movimento"?

O grupo produz música artesanal, gravada em tempo real. O que nós temos que fazer quando compomos um novo concerto é criar novos pretextos para tocar. Os novos pretextos são um grupo de 16 canções que constituem um novo concerto, utilizando os mesmos instrumentos – duas guitarras clássicas, um baixo, sintetizadores e a voz (é o quinteto, em exclusivo). Chamámos "Movimento" a este disco, na primeira acepção, porque os arranjos e a música que fizemos são mais movimentados, ou seja, têm mais notas. O desafio não foi tanto gerir um efeito silencioso mas gerir uma outra característica do nosso grupo, que é os músicos estarem sempre a tocar e criarmos as pausas e a dinâmica musical sem que exista um silêncio rigoroso de algum instrumento. O quinteto está sempre a tocar, só a voz é que ora pronuncia palavras, ora não. Neste caso resolvemos isto com estruturas mais densas, harpejos de mais notas e com ritmos mais evidentes.

O álbum tem um ambiente próximo a uma canção da "Antologia", "Oxalá". Terá sido um prenúncio deste novo álbum?

O "Oxalá" é exactamente destas sessões, gravadas em Janeiro de 2000. Saiu na compilação, mas posteriormente ao disco estar gravado.

Que objectivos alimentam para este novo álbum?

Nós somos músicos. Tomamos a iniciativa de publicar as canções. O nosso objectivo é sempre o mesmo, é que a música seja conhecida, que faça companhia às pessoas, que os discos cheguem às pessoas, que elas descubram as suas virtualidades, na sua intimidade ou nos meios de comunicação, e que percebam que a música gravada dos Madredeus é um convite a assistir aos nossos concertos. O objectivo deste disco é ser conhecido o seu conteúdo, as suas canções, a sua poesia apreciada, a música fazer companhia às pessoas e que crie apetência ou curiosidade por assistir aos concertos do grupo.


O mais importante para os Madredeus é o palco?


É onde o nosso trabalho é mais valioso, porque existem poucos grupos que toquem como nós, com as guitarras clássicas, com uma voz como a da Teresa Salgueiro, que escrevam música para o ambiente particular que nós criámos para os nossos concertos ao longo destes 14 anos de vida pública. Criámos uma atmosfera particular nos concertos do Madredeus que nos permitiram viajar por muitos tipos de repertório diferente, por muitas estéticas musicais, períodos bem definidos da nossa obra. Os concertos são a coisa mais valiosa hoje em dia. E no futuro vai ser cada vez mais valioso haver bandas que realmente toquem.

Os Madredeus de hoje são muito diferentes dos Madredeus de 1987. Como é que vê este crescimento, esta evolução de um som mais popular para um som mais erudito?

O grupo não é diferente. O grupo é o mesmo. É a minha iniciativa e a minha direcção, com a Teresa. O grupo é dedicado a fazer música para ela e para a guitarra. É isso que continuamos a fazer. Os músicos são diferentes mas o projecto é o mesmo. O grupo é feito no fim dos anos 80. Eu sou o mais velho e tomo a iniciativa de reunir à minha volta músicos muito jovens com esta ideia de fazer um certo repertório, sem percussão, para uma voz feminina. Um repertório que pudesse exibir bem a identidade da poesia portuguesa e alguma da tradição musical. É uma espécie de escola, cuja ideia cativa alguns professores, podemos pensar assim. Os alunos vão saindo fatigados, depois de oito ou dez anos no grupo, e os que vêm substituí-los são professores. Agora sou eu que aprendo com eles.


Alguma vez, no início, pensou que os Madredeus pudessem chegar onde chegaram? Havia alguma esperança de serem o que são hoje?

Se eu disser que sim, vai achar que estou a mentir. Se eu disser que não, estou a mentir eu, porque achava que sim. Eu tinha já doze anos de bandas e de repertório e de gravações e de viagens. Sem dúvida que havia esperança e a visão de que, com aquele tipo de construção, um grupo como este podia ser um grupo portátil e mundialmente interessante.


Qual é a motivação, hoje, para continuar e para fazer um álbum novo de Madredeus?

Nós recebemos um estímulo inequívoco para continuar do público de vinte e dois países, que são aqueles onde apresentámos as quatro fases do grupo – o "Existir", "O Espírito da Paz", "O Paraíso" e "O Movimento" (que já temos vindo a apresentar desde o ano passado) – e em todas as línguas as pessoas dizem "nunca acabem, vocês têm aqui um grupo maravilhoso, vocês continuem". E depois acaba o concerto e sou pago. Não ganho milhões mas ganho bem. Ao longo destes anos só fui reunindo condições para continuar.

Mas a questão é: a motivação de hoje é diferente da de há quinze anos?

A motivação é extraordinária, é fora do vulgar. É veres a tua música, a tua dedicação, premiada pela atenção e pelo comentário e pela crítica e pelo amor de pessoas de todo o mundo. E isso é um grande estímulo para continuar. O resto dos membros do grupo também se bate pela continuação. Não temos problemas com ensaios nem com assiduidade nem com dignidade nos espectáculos. As pessoas são militantes, gostam do grupo. Para mim, trata-se daquilo que o grupo faz, que é a coisa que mais gosto de fazer: continuar a tocar guitarra, continuar a aprender música, que é o meu sonho, compor, fantasiar sobre canções, sobre impressões, criar uma obra plástica, fantasista, que me permita dissertar e pensar sobre a história do meu país, visitar o mundo inteiro, aperceber-me do que é o estado do planeta inteiro, viver com essa consciência pessoalmente, sem ser através da televisão. E isso é uma motivação extraordinária. No início a acção era desesperada. O grupo era bizarro, ninguém tinha dinheiro, ninguém tinha instrumentos, o futuro era desconhecido, estávamos a aprender, não tínhamos nenhuma garantia, não tínhamos nenhum apoio. Mas esse idealismo foi bem recebido e recebemos esse apoio na medida em que respondemos ao interesse e ao entusiasmo das pessoas. O sucesso do Madredeus nos outros países é feito pela dedicação com que visitámos esses países. No futuro, com mais calma, continuamos a pensar fazer a música e apresentá-la.


Como é que vocês encararam a ideia da internacionalização, na altura do "Espírito da Paz", que foi pensado já para ser editado em vários países?

Isso foi mais cedo, em 1991, na altura da primeira digressão portuguesa, que começaram a aparecer essas possibilidades. O grupo estava em primeiro lugar no top grego, havia uma canção antiga ("O Navio") muito tocada na Bélgica, em Paris havia o interesse de irmos lá. Rapidamente se percebeu que o grupo não podia manter-se amador. Por isso, o grupo foi consultado no sentido de profissionalizar-se, dedicar mais tempo. Foi o que tivemos que fazer. Depois, preparámo-nos produzindo repertório, ensaiando muito, garantindo que os concertos tivessem sempre maior qualidade, muito trabalho de imprensa – nunca nos fizemos rogados a explicar, a traduzir as canções, a ouvir a opinião local, a curiosidade local. Foi essa dedicação que foi sendo assegurada, através de permanentes reorganizações do grupo, que são patentes nas pessoas que saem e que entram, normalmente por não concordarem com a tendência geral. Como costumo dizer, isto é fazer parte da tripulação de um submarino, só se sai nos portos. A organização do grupo é dinâmica e reage em "feedback".

Acha que a sonoridade dos Madredeus é a sonoridade que os públicos estrangeiros procuram ou associam a Portugal (já que os Madredeus são tão conhecidos no estrangeiro como foi a Amália)?

Comparar Madredeus com a Amália é erróneo, porque a carreira da Amália é de uma outra época, feita por uma artista rodeada de uma elite de escritores e músicos e não se passa a partir de Lisboa (ela gravou no Brasil e com músicos estrangeiros). O Madredeus é um projecto criado agressivamente para viajar e para ultrapassar as nossas fronteiras. Tão só não se pode comparar a nossa viagem com a de nenhum grupo português, como também não se pode comparar com a de nenhum grupo europeu. Não há nenhum que toque em todos os países da Europa e na América e no Oriente durante dez anos, apresentado recitais diferentes. A aventura do Madredeus é uma aventura pensada. É um exemplo para a música portuguesa, como para a música espanhola ou italiana. Hoje em dia já ninguém pensa que há muitos grupos como o Madredeus em Lisboa, mas muita gente virá a Lisboa, que era uma das nossas ideias – através da divulgação de uma fantasia musical sobre a cidade, despertar a curiosidade de um turismo que não fosse o turismo da classe operária europeia que assalta os nossos hotéis no Algarve mas que fossem pessoas que chegassem a Lisboa e reconhecessem a nossa cultura e a nossa História. No Madredeus, distingue-se aquilo que é particular. Aquilo que era bizarro passou a ser familiar. Para algumas pessoas, Portugal era desconhecido mas passou a ser berço de um grupo que ouviam. A língua portuguesa era desconhecida e passou a ser conhecida como bonita. Trata-se de não abandonar as origens mas arranjar uma forma moderna e portátil de as exibir.


Os concertos de apresentação do "Movimento" vão contar com a participação do Maestro António Vitorino de Almeida. Em que moldes decorrerá essa colaboração, tendo em conta que, apesar de raro, não é primeira vez que actuam com um elemento exterior?

Ele só vai tocar connosco "As Brumas do Futuro", ao piano. É uma coisa natural, a gente fez aquela canção para o disco do "Capitães de Abril". Eu escrevi a letra para um tema do filme e nunca a tocámos. Mas faz sentido tocar e então, nestes concertos no Porto e em Lisboa, convidámos o Maestro para vir tocar connosco, porque o arranjo também tem piada.

Uma das suas facetas menos conhecidas é a de pintor ou ilustrador, que desta vez vem espelhada no "Movimento". O que é que procurou com estes desenhos?

Eu não me considero profissional disso. Isso era para tirar e fazer uma fotografia, mas gostei tanto dos desenhos que tinha feito para explicar a fotografia que preferi ficar logo com os desenhos. Achei que era mais giro e que dava a ideia do artesanato, que transmitia a mesma ideia que tem o grupo, que é a defesa do gosto pela música e pela actividade do músico, que é uma actividade artesanal. E isso é uma das coisas que eu penso que é muito importante no sucesso do grupo, aqui e em todo o lado, que é o gosto que crianças e adultos tiram de ver, num espectáculo de Madredeus, a maneira como nós manipulamos os nossos recursos e como é que aquele quinteto produz, canção a canção, ambientes tão diferentes, sem recurso a mais nada do que as cordas das guitarras e as teclas do sintetizador. E isso é que é extraordinário nos nossos espectáculos.

Saindo do âmbito dos Madredeus e voltando um pouco atrás no tempo, como é que encara esta recente recuperação da música e da imagem dos Heróis do Mar?

Acho que é uma pena que só tenha aquela parte da nossa carreira. Porque aquilo são os primeiros quatro anos e os outros cinco estão noutra editora. Tenho pena que elas não se tenham entendido para fazer uma manobra conjunta. Mas vamos pensar que esta atenção que a nossa música está a merecer vai evoluir para uma atenção para a continuação daquele grupo. O que acho que é uma coisa bastante optimista. O álbum "Macau", que fizemos a seguir àquilo, e "O Inventor" e o último álbum dos Heróis do Mar, a última canção de todas, "A Africana", "O Fado", são coisas muito interessantes que o grupo fez e a evolução do grupo também é, em si mesmo, uma coisa interessante, a maneira como passamos da "Brava Dança dos Heróis" à "A Africana" em nove anos, que foi quanto tempo o grupo existiu. Quanto ao resto, saúdo o interesse que está criado sobre o disco. Acho que a música não perdeu a modernidade que tinha na altura. Aquelas premissas que nós seguimos estão hoje evidentes, a ideia que a gente sempre teve de se demarcar do rock português, de considerar que o nosso grupo não era um grupo operário, com origem nos arredores das grandes cidades – nós éramos filhos de burgueses, nessa altura esse era um tema. E, na verdade, o trabalho a nível metafórico, a nível de dramatismo, a nível de ambição musical, de cultura musical, a parte da coreografia, era um trabalho denso. Como tivemos esse cuidado todo na altura, mesmo sendo muito jovens, penso que ainda hoje é muito interessante ouvir o disco, ouvir a música que fizemos naqueles anos. A música não tem um som antiquado e a ideia ainda hoje sobrevive.

Entrevista de Ricardo Sérgio
Netparque, 19 de Março de 2001

 

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