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O
sonho parece maior quando os sons se espraiam pelos corredores da nossa
alma. Por todo o lado há sons, no vento, no murmúrio de um pequeno
ribeiro, na vastidão do mar. Haverá sons entre silêncios? Quem
conhece e sente os sons que se escondem para lá do silêncio, para lá
do infinito, para lá do horizonte que nos limita o olhar e que se perde
a cada anoitecer, sabe do que estou a falar e não estranha estas
palavras, estas ideias retocadas pelos sons d' "O Paraíso". É
entre sonhos e desejo de sonhar que uma ideia pensada por sonhadores,
por fazedores de sons surge em Portugal na década de 80, uma ideia
feita de grandes vontades, de grandes procuras, num pequeno país
voltado para o mar, para a descoberta do que há para além de um oceano
de saudade e de um horizonte que insiste em esconder o sol no final de
cada dia, apagando até nova alvorada, a esperança de avistar novos
mundos. O
projecto Madredeus é mais do que uma ideia pensada por sonhadores, é
uma construção, a metáfora de um país que sempre se guiou pelo
sonho, pela saudade, pela poesia, pela música: um país de poetas e melómanos. A
música dos Madredeus começou por ser o retracto da paisagem
portuguesa, uma paisagem desconhecida, repleta de semelhanças,
contrastes e contradições, construída por imagens e sentimentos que
se unem e afastam ao sabor das marés: os campos, as cidades, as
montanhas, o mar; as alegrias, as tristezas, o amor e a saudade. A música
a espelhar o rosto de um povo, um espelho a soltar sons e imagens, que
desde cedo despertaram a atenção de uma imensa minoria, que há muito
tempo esperava pelo renascer da música portuguesa, da alma musical
portuguesa, até então adormecida. De repente, esta imensa minoria, pôde
voltar a sonhar, a chorar, a sentir, a emocionar-se com os sons que
pareciam ecoar da sua própria alma, trazidos pelo vento e pelo mar. O
sentimento, a emoção, o amor, a saudade, a esperança, o sentir
português que a música dos Madredeus desde sempre transportou consigo,
navegou o mar e chegou a outros portos, a outras gentes que souberam
interpretar e compreender a mensagem missionária lusitana, herança de
outros tempos, tempos antigos que "Ainda" se vislumbram neste
virar de milénio. Outras paragens, outros horizontes, outras culturas
que tornaram a música dos Madredeus universal. A
imensa minoria, que os Madredeus cedo souberam cativar, soube ela própria
passar a mensagem. Alargaram-se os horizontes, os públicos, dentro e
fora de Portugal, e o melhor grupo português que alguma vez existiu, o
grupo português que mais soube inovar continuou o caminho, venceu
batalhas contra gigantes, ultrapassou obstáculos, conquistou e
emocionou novos corações, converteu mais e mais almas. De
Portugal para o mundo, os Madredeus continuaram o seu percurso, a sua
viagem musical em torno de uma ideia: fazer do sentimento bandeira e
erguê-la bem alto, tão alto que com isso pudessem alcançar "O
Paraíso" por muito apertado que fosse o caminho até lá. Sérgio Freitas, Outubro 1998
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