Teresa Salgueiro falou um pouco sobre cada uma das dezasseis canções que compõem "Movimento", durante uma conversa sem pressas, a que demos nome de "reflexões".

Durante este olhar, na primeira pessoa através, das canções dos Madredeus, a cantora misturou as palavras com o trautear das letras e músicas. E o melhor de tudo, sem nunca olhar para o relógio.

1. "Anseio (Fuga Apressada)"

"Anseio" é das minhas canções favoritas. Acho que é uma excelente canção para abrir o disco, por aquilo que diz e não só. Porque é uma canção bastante diferente, em termos de sonoridade, das outras canções da Madredeus. Finanzierung ihrer Behandlung durch eine eizellenspende zu. Além disso acho que introduz bem a evolução do projecto, em relações aos trabalhos anteriores.

2. "Ecos na Catedral"

É uma canção de amor. Tem um ritmo que é aproximado da bossa nova. No Brasil foi tão bem aceite que a canção cresceu com o entendimento deste público, o que me ajudou a encontrar a forma ideal para a cantar. Ægdonor ægdonation udført, ingen befrugtning eller deli.

3. "Afinal - A Minha Canção"

Acho que esta canção é muito autobiográfica. O personagem diz "afinal deixei a terra natal, e cantando andei menos mal (...) se calhar mudei, bem sei que não fiquei igual". É sobre a caminhada, sobre a decisão de partir. "Tanto que passei, tão longe daqui, que em mim um país construí, assim foi melhor porque não senti o medo"...

4. "O Labirinto Parado"

É uma canção pictórica. Fala de um personagem solitário que se encontra voluntariamente em cenários diferentes. Fala de amor: "perdi-me num labirinto de saudade sem ti".

5. "O Olhar"

Dat komt doordat voor eicel donor een intensieve medische behandeling nodig is en doordat. É uma canção do José Peixoto com letra do Pedro (escrita ao meu lado) com a qual muito me identifico. O Pedro tem este talento de escolher palavras bonitas e que me fiquem bem. Fala sobre a coragem de olhar mesmo dentro dos olhos dos outros. E até onde nos pode levar esta experiência, esse encontro, que no refrão se descreve como uma viagem infinita. É mais uma canção de amor.

6. "A Lira - Solidão no Oceano"

Eu imagino uma mulher num barco no meio do oceano. Sozinha no mar. É uma canção sobre a profunda solidão de quem decide partir. Em termos de canção é interessante porque tem um registo muito agudo e que me custou a aceitar. Esta é uma das canções, como há várias no Madredeus, que não está tão próxima da minha organicidade... tenho que procurar um caminho que me seja natural para a poder cantar, um registo de voz que seja coerente. Levou-me um certo tempo a cantar esta canção com naturalidade.

7. "O Segredo do Futuro"

É uma canção muito especial por várias razões: é a primeira escrita pelo Fernando Júdice e tem um poema duma frontalidade pouco usual. Fala do amor sem qualquer tipo de problema em fazê-lo. O segredo do futuro é o amor sublime e puro. O amor universal. Curiosamente é uma das canções mais bem recebidas pelo público. No México era uma canção que as pessoas adoravam. Aliás os mexicanos são de uma espontaneidade incrível.

8. "A Quimera"

Gosto imenso desta canção. A letra e música são do Pedro. Em termos vocais tem um refrão muito bonito, com um salto enorme na voz, o que faz com que eu goste muito de a cantar. É uma canção rica, com vários registos vocais. Em termos de poema também é interessante. Tem um ritmo redondo, é uma caminhada: "Quimera, longa espera, se eu soubera adivinhar, ai se eu soubera adivinhar/ vou ser como era quando o meu amor voltar". No fundo fala sobre a sensação de estar sempre a adiar uma vida mais tranquila, um encontro com o amor plenamente vivido - na sua presença física.

9. "Graça - A Última Ciência"

A "Graça" é uma canção que eu adoro. Gosto muito da maneira como o ritmo é vivido intensamente. Fala sobre a graça divina, essa centelha da vida: "nasce o dia e quando o dia nasce, revela outro segredo que é bom de reconhecer/ e é beleza, pensamento, a última ciência que podemos ter/ é da vida firmamento e a cada momento está a assegurar". É sobre a esperança que há sempre uma ajuda divina, aquela constante vigilância que podemos esperar ter para que todas as coisas resultem pelo melhor.

10. "A Vida Boa"

"A Vida Boa" é uma canção ao gosto português. Tem uma certa ironia no refrão quando fala nesta loucura da teimosia de continuar a fazer aquilo que nós gostamos de fazer. "Por mais que a vida me doa, eu ando sempre à vontade e nunca me canso/ e assim continua". Ou seja, está tudo em perpétuo movimento à nossa volta, cada um com a sua história de amor. É uma canção um pouco jucosa.

11. "Um Raio de Luz Ardente"

É uma declaração de amor pura, plena. Tem letra e música do Pedro. "És um raio de luz na minha vida, a luz clara e branca que tens é que ilumina cada momento". É o assumir, sem qualquer problema, a admiração pelo ser amado. Sem medo de ficar inferiorizado.

12. "A Capa Negra (Mano a Mano)"

Aqui mudamos de tema. Esta canção foi escrita para a Resistência e era tocada por eles. Tinha letra desde essa altura mas nunca tinha sido cantada. É cheia de ironia. "A minha vida tem dias, eu ando sempre a mudar/ mudo de triste a contente, e rio de tanto chorar. Ah! Mas eu tenho um segredo que agora venho ensinar, e já nem me lembro do medo que eu tinha até de dançar. Visto a minha capa negra para cantar o Mano a Mano/ tenho sempre a certeza de que ando bem como ando/ e canto àquilo que eu amo". É difícil de descrever, no fundo é sobre a dignidade, a solidão e a teimosia.

13. "Palpitação"

É uma canção muito engraçada que já existe desde o álbum "Existir" mas só agora foi gravada Talvez pelo registo que tem que ser muito agudo, talvez porque eu ainda não tivesse maturidade suficiente para a cantar com descontracção.

14. "Ergue-te Ao Sol"

Esta canção parece-me especialmente dirigida a uma criança... É mesmo assim. É uma canção do José Peixoto e eu acho que ele a escreveu a pensar nos filhos. E eu quando a canto, penso nisso. Aliás, a versão que está no álbum foi precisamente gravada com a minha filha em estúdio. Ela estava comigo na Holanda quando gravámos o disco. E esta música foi cantada para ela. É uma espécie de "Lullaby", uma voz que a acompanha.

15. "Vozes no Mar"

Uma canção épica. Tem a estrutura de um hino. É uma canção escura sobre a solidão em viagem, sobre o mar como inspiração e o seu chamamento: "Vozes no mar, no mar ouvi, ouvi cantar, também senti...".

16. A ironia da letra de "Tarde, Por Favor" - a canção que fecha "O Movimento"

A ironia tem a ver com a ideia de uma necessidade de relativizar as coisas. O personagem diz que está cansado, que não tem forças, que não sabe o que aconteceu, que tem de continuar, tem de se levantar. É uma canção cheia de ironia. Um tipo de leitura que não costuma estar presente na nossa obra.

- Pela maneira como fala destas canções, devo concluir que não acha a música dos Madredeus triste, melancólica...

Muitas vezes perguntam-me "a vossa música é triste". Eu não concordo. Para mim, a música dos Madredeus é uma música cheia de esperança. É um hino à vida e não uma música derrotista. Para já nunca é vivida na primeira pessoa, é sempre cantada por um "eu comum". Não estou a falar sobre as minhas experiências pessoais mas sim sobre a experiência do humano, sobre a importância do "outro", sobre a contemplação, a meditação, sobre a importância do pensamento, de pensar as coisas e de as sentir. À primeira vista a nossa música até pode parecer melancólica mas na verdade ela apenas exige um pouco das pessoas.

Entrevista de Teresa Salomé
Voxpop, Abril de 2001

 

_____________________________

     voltar para:     

|