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O
«Movimento» explicado pelo seu criador
O
desabafo vem entre risos: «Agora consegui finalmente ouvir na rádio
canções dos Madredeus sem ser "A Vaca de Fogo"!» É um bom
retrato da descontracção de Pedro Ayres Magalhães, no momento da edição
de «Movimento», álbum cujo título parece definir a essência do mais
internacional de todos os grupos portugueses.
O
título de «Movimento» (ver crítica na edição da semana passada)
é programático porque paragem, pelos lados dos Madredeus,
constantemente em viagem pelo mundo, nunca houve, mesmo que à superfície
a calmaria parecesse abundar. Mas os quinze anos de percurso do grupo
desde 1986 foram tudo menos pacíficos -- e só agora, ao nono álbum
(sexto de estúdio) e com uma formação estabilizada que apenas retém
da fundação o próprio Pedro Ayres Magalhães e a emblemática cantora
Teresa Salgueiro (acompanhados pelos veteranos José Peixoto, Carlos
Maria Trindade e Fernando Júdice) o projecto parece ter atingido o
equilíbrio zen que procurou desde o arranque.
«Duas
guitarras, um baixo e um piano é o combo perfeito, e é uma formação
muito versátil, com a vantagem de sermos os veteranos do grupo; sabemos
muito bem em que ambiente é que decorrem os concertos, de modo que não
precisamos de ir recrutar mais ninguém para perpetuar a nossa
bizarria...».
A
afirmação é bem-disposta, e essa «bizarria» nunca impediu os
Madredeus de atravessarem fronteiras; talvez tenha até sido uma das
mais-valias que impôs o grupo lá fora. É talvez a maior satisfação
que se sente nas palavras de um Pedro Ayres tranquilo que discute,
disserta, debate ao longo de hora e meia num hotel de Lisboa: a satisfação
de ter chegado tão longe e de ter levado a todo o mundo música
universal feita em língua portuguesa sem para isso precisar de fazer
cedências. Nem de utilizar baterias.
«Não
se pode dizer que em 1985-86 [quando a banda começou] se pensasse ir
muito além do "Existir". Durante muitos anos fizemos
concertos -- cá ou lá -- com poucos recursos, ganhando pouco dinheiro
mas com muito sucesso em relação à ideia artística que exibíamos, e
a nossa independência foi dependente de uma grande industriosidade.
Também de uma grande determinação e de uma certa abnegação; achar
que as coisas não acontecem como se pensou que iam acontecer mas não
largar, confiar naquilo que se apresenta à fantasia. O grupo dispôs-se
a viajar -- podia não ter disposto -- e isto não foi fácil. Claro que
não vais a casa, que não vês a tua namorada, não vês a tua mãe, não
vês o teu pai, não vês os teus amigos, não vais aos concertos, não
vais à Trindade, não vais a lado nenhum...»
O
Sonho
O «sacrífício» parece ter dado frutos -- e a atitude pode ser
reputada de exemplar, sobretudo em termos de um mercado musical português
onde muitos ficam pelo caminho por incapacidade de enfrentar os obstáculos
que se erguem regularmente. Pedro Ayres prefere colocar a coisa,
contudo, noutro paralelo.
«Acho
que o exemplo do Madredeus pode afirmar várias coisas, que têm a ver
com a legitimidade, com a possibilidade provada de fazeres reportório
com a subjectividade da tua autoria -- não é um reportório clássico,
canónico, do gosto dominante que vais interpretar e que te permite
sobreviver -- e com essa questão da auto-promoção. Que há poucos
meses foi actualizada: por exemplo, as companhias do teatro, em que as
pessoas insistem numa visão do estado socialista, na qual o Estado tem
obrigação de subsidiar os artistas. Mas depois o estado nunca se sente
nessa obrigação e as pessoas nas suas carreiras vivem na neurose de se
sentirem com direitos a subsídios que o Estado não dá e terem vidas
desgraçadas...
«Dadas as circunstâncias, é possível, com engenho e arte, fazer um
grupo independente e ter a notoriedade e a actividade de uma vida artística
consequente sem andar de mão estendida. Não gosto da postura do gajo
que se queixa até porque não tenho razões para isso; consegui ser
independente até à data. Mas mesmo com um projecto de dimensão
mundial que permite uma expressão da cultura portuguesa, mesmo com essa
campanha extraordinária que o grupo fez e anda a fazer e que tem
consequência nos interesses de uma nação inteira, nunca, nem uma
instituição, nem um milionário, nem uma fundação, nem um jornal,
nem uma cadeia de televisão, nunca nestes quinze anos ninguém veio ter
comigo a dizer que grupo tão giro, que projecto tão giro, eu quero
apoiar, do que é que precisas? Nunca conseguimos uma coisa
complementar, um apoio a uma campanha portuguesa».
Três
Ilusões
O
desinteresse institucional é irónico, no mínimo, quando se sabe que há
quem ainda hoje identifique os Madredeus como «grupo do regime». E,
sobretudo, quando se recorda que, primeiro com os Heróis do Mar e,
depois, com os Madredeus, Pedro Ayres tem vindo a desenrolar uma
reavaliação da simbologia mítica e da identidade nacional portuguesas
que, inicialmente mal recebida e incompreendida, acabaria entretanto por
ser adoptada quase como «discurso oficial» por muitos governantes,
como ficou bem patente em todo o imaginário da Expo '98.
«Pois, mas infelizmente só faz parte do discurso. Não se construiu à
volta dessa liberdade. Esse já era o comentário do Fernando Pessoa
durante o Estado Novo: já então havia uma grande parafernália de
simbologia patrioteira mas ele queixa-se dos adjectivos serem os mesmos
que se aplicam aos poetas e aos futebolistas, de não haver critério. A
falta de expressão dessa simbologia reside numa coisa mais profunda que
é a falta de disponibilidade dos nossos governantes para fazerem uma
pedagogia da cidadania. Acho que a única pessoa que fala assim ou que
falou assim nos últimos anos do seu consulado e ainda hoje fala assim
é o Mário Soares.
«Estes símbolos parecem muito distantes para umas pessoas que vivem e
trabalham ganhando pouco, que se empenham para comprar uns apartamentos
numas ruas esconsas que não têm passeio, que não têm jardim, que não
têm café, onde ninguém monta um negócio do interesse comum, que não
têm lixo, que não têm sanidade, que não têm hospital, e a malta
trabalha para pagar aquilo! Isto cria um divórcio absoluto entre o
cidadão e o interesse comum. Mas no entanto foi possível fazê-lo
durante estes anos em que se discutiu o melhor para o nosso país. E
acho que esse caminho não tem retorno. Porque tu a partir de Badajoz já
não encontras arredores das grandes cidades sem sítios para as pessoas
passearem os filhos. Numa cidade portuguesa já não consegues fazer
isso. Se uma pessoa tem um filho e não tem onde o levar isto está tudo
estragado. Portanto é natural que toda a simbologia sobre a nação
possa ser desconsiderada e depois passível de ser usada com fitos
manipuladores».
Viagens
Interditas
«Movimento»
afasta-se, contudo, da exploração dessa simbologia para se deter mais
na esfera do pessoal; este é o disco de uma banda que se alimentou das
suas viagens por todo o mundo e que agora se ocupa em procurar traduzir
por música um qualquer indefinível universal. Afinal, esta sempre foi
uma «banda portátil», como em tempos Pedro Ayres bem-humoradamente
definiu o projecto...
«Isso
nasceu do conhecimento que havia muitos horizontes, e que a ambição de
apresentar alguma música a esses outros horizontes e também ao nosso
país passava por certas condições -- o peso orçamental da aventura,
a dimensão da companhia, e as características artísticas da
legibilidade do reportório. Não é garantido, como era aqui há uns
anos atrás, ter de ter uma grande produção e trinta anos de carreira
para fazer concertos grandes. Isso não é verdade. A língua não é
obstáculo e a origem também não é obstáculo. E esta ideia era uma
ideia para viajar: eu andava com os Heróis do Mar a palmilhar aqui, a
produzir discos, a fazer a Fundação Atlântica, a fazer a maior
iniciativa possível, e só no território português essa coisa
esboroava-se porque havia uma desidentificação obrigatória que tinha
a ver com uma certa falta de precursores entre nós. Mas os Heróis do
Mar viajaram, logo desde o início. A procura de uma itinerância que
transcendesse a fronteira portuguesa começou logo nessa década, todos
os dias falávamos nisso; depois não tínhamos era dinheiro porque um
grupo eléctrico exigia muitos recursos...».
Ao contrário da formação inteiramente acústica dos Madredeus. «O
que aconteceu foi que esse grupo [que tínhamos] pensado para ser portátil
foi mesmo portátil. E acabámos por crescer em frente a toda a gente: o
grupo foi amador e vestigial primeiro, projecto no início,
semi-profissional no meio, impecável a dois terços... Hoje em dia é
um grupo que assegura em todas as condições grandes concertos, mas
isso demorou tempo e foi feito em frente às pessoas. O nosso grupo não
progrediu introduzindo uma secção de metais ou uns percussionistas da
Birmânia, com um aumento de recursos; progredimos melhorando as
interpretações, renovando as composições... Em qualquer momento podíamos
ter dito: pronto, já chega, temos cinquenta músicas, com isto é
escusado estar a gravar mais discos, gravamos outra vez estas músicas
(risos). Mas adoptámos a estratégia de não descansar em nenhum grupo
de reportório e tentar, só com o mesmo nome e com o mesmo figurino do
grupo e com a mesma disposição de viajar e de nos apresentarmos onde
pudéssemos, dotar o concerto de novo reportório. E se não inovasses o
teu reportório na primeira oportunidade, a modernidade que o grupo
tinha nessa altura em Portugal não passava para fora. Para nós era
muito inovador, mas lá fora era um grupo folclórico português. Não
conseguíamos passar a dimensão rock que o grupo tinha aqui nem a
dimensão electro-acústica, porque lá fora qualquer grupo toca
amplificado... Íamos ser confrontados com expectativas que eram o fado
e a música folclórica e com aquele reportório do "Existir"
não nos safávamos, à excepção das "Tardes de Bolonha" e
das "Ilhas dos Açores" não havia mais nada que te tirasse do
mundo da canção popular, do baile de aldeia. Nessa altura é que se
começou a desenhar aquela ideia de se fazer uma música mais sinfónica,
mais atmosférica, que depois aparece no "Espírito da Paz",
que é o disco que nós sabemos de antemão que vai ser editado em
muitos países».
A
Vontade de Mudar
Ele fala de rock? Ele fala de sinfonismo? «Lembro-me perfeitamente de
[durante a digressão de «Existir»] apanhar um avião em Tóquio,
sentar-me ao lado do Rodrigo Leão e dizer-lhe que isto agora tem de
mudar, temos de fazer umas canções mais parecidas com os Heróis do
Mar, mais parecidas com a Sétima Legião... Se queres que te diga, faço
as canções do Madredeus com um espírito verdadeiramente rock. Depois
arranjá-las ou escrever as letras leva mais tempo e implica muito mais
reflexão, mas agora... as ideias iniciais... pego na guitarra e faço
uma canção e está feito. E é rock. O "Afinal" é um blues...
Queres uma balada mais rock que "A Lira"? E o que é a música
"O Paraíso" senão uma homenagem ao Carlos Santana? O
"Oxalá" é aquela coisa "lounge", mais Burt
Bacharach que Tom Jobim... Essa liberdade de entretenimento e esse
retrato de uma influência musical em que as épocas se misturam, que é
o mundo em que eu vivo nos últimos vinte anos, em que as influências
se trocam, não é mais do que deixarmo-nos influenciar pela música que
ouvimos, é a coisa mais natural que existe».
A serenidade que Pedro Ayres transpira passa por uma convicção de que
«Movimento» marca um momento de calma depois da tempestade; não
deixa, aliás, de haver uma certa ironia por este álbum sereno se
chamar «Movimento» e o anterior, com o título pacato de «O Paraíso»,
ter marcado uma alteração de sonoridade e uma transição de formação,
com a saída do acordeonista Gabriel Gomes e do violoncelista Francisco
Ribeiro e a entrada do baixista Fernando Júdice.
Foi, explica Pedro Ayres, o disco que lhes abriu as portas de muitos países
onde antes não tinham entrado, mas não foi de gestação fácil: «"O
Paraíso" foi gravado depois da saída do Gabriel e do Francisco, e
nós começamos a preparar o disco numa atmosfera de alguma pressão --
da opinião pública, da editora, de todas as pressões possíveis... E
fomos gravar pela primeira vez com este grupo, num ambiente bastante
experimental e antes do concerto ser rodado... "O Paraíso"
foi feito em quatro meses, enquanto que o "Movimento" foi
feito durante ano e meio, de maneira completamente diferente. O grau de
qualidade da gravação e da execução da música é muito superior aos
discos anteriores. E parte dessa calma tem a ver com a "souplesse"
da execução e com as condições que foram criadas para a concepção
da música. A Teresa conhecia muito bem as canções quando as veio
cantar, todos os músicos sabiam os seus arranjos, não havia nenhuma
tensão técnica de "vamos tocar bem" ou "vamos tocar
mal". Queríamos era pôr aquilo no patamar da ourivesaria, uma
coisa mesmo com durabilidade, com história».
As
Brumas do Futuro
A serenidade passa também por uma abordagem radicalmente diferente à
promoção internacional da banda. «Neste momento decidimos fazer uma
digressão em que vamos só uma vez a cada país. Em vez de o grupo
andar a dar entrevistas no mundo inteiro, irmos lançar os discos, fazer
vinte concertos em Espanha e trinta em França como é costume -- porque
é isso que querem que a gente faça, aí tens a explicação do que
seria o nosso futuro (risos)... -- não, venham cá vocês ver por vocês
próprios o país de que andamos a falar há tanto tempo. A gente nunca
sabe se esta estratégia e passos consequentes são o degrau correcto
para o futuro -- mas para o futuro do grupo é de certeza o degrau
correcto. Se fôssemos agora fazer outra vez um ano com 250 concertos
duvido que no fim desta "tournée" o grupo tivesse pio.
«A nossa agenda está completamente preenchida, o nosso movimento é de
salvar o vigor do próprio grupo e tentar que não seja deglutido pela
indústria. Hoje em dia podemos divulgar a nossa música sem essa rotina
obsessiva do tocar tocar tocar -- são opções de luxo, é claro. No
entanto, se alguma vez alguma coisa correr para o torto é pior ser uma
doença de um músico ou a saída de um como já aconteceu no passado. O
nosso prestígio não é a única coisa que recebemos; também vendemos
discos, também fizemos concertos, fomos pagos por isso, fomos apoiados
por um público anónimo que, cada um, dá quinhentos paus para o bife
do almoço, para pagar a renda da casa, para mudar as cordas da guitarra
e para continuar a fazer o que pode ser feito nesta coisa da música....
E portanto quando pensamos no futuro não pensamos como se estivessemos
a gerir uma oportunidade da sorte. Penso que o público que alguma vez
nos apoiou ou toda a gente que ligou ao conteúdo das nossas canções não
quer que isto acabe em alguma coisa esforçada ou contra-natura. O que
deveria acontecer no futuro do Madredeus era um acampamento da
"unidade expedicionária" em Lisboa e sair pontualmente… uma
semana de concertos e depois voltar à vida normal. As pessoas do grupo
já não são jovens, têm quarenta e tal anos, família, necessidades
que não têm miúdos de vinte anos. Só isto é que pode permitir
futuro a este grupo».
O
Homem do Leme
Interveniente activo e articulado na discussão sobre a música moderna
feita em Portugal, Pedro Ayres Magalhães passou ao longo dos últimos
vinte e cinco anos por alguns dos mais importantes projectos musicais do
nosso país. Fez parte dos Faíscas (1977-1979; a primeira -- e
provavelmente a única -- banda punk portuguesa; nunca gravaram) e Corpo
Diplomático (1979-1980, projecto new-wave que editou em 1980 o álbum
«Música Moderna»). Foi fundador dos Heróis do Mar (1981-1988; cinco
álbuns de originais), uma das bandas mais importantes no
desenvolvimento de uma estética e de uma ideologia rock.
Durante a existência dos Heróis foi igualmente director musical da
editora independente Fundação Atlântica, onde produziu discos dos
Delfins e Anamar, participou igualmente como músico e produtor em
discos de Né Ladeiras e António Variações e editou a solo em 1985 o
máxi-single «O Ocidente Infernal». Foi o ideólogo e mentor do «ensemble»
acústico Resistência (1990-1994; três álbuns) e fez parte dos
Delfins entre 1992 e 1993. Desde 1986 é guitarrista, compositor e autor
nos Madredeus, embora a carreira do grupo só tenha efectivamente
arrancado a tempo inteiro em 1990.
Jorge Mourinha
Blitz, Abril 2001
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