O QUE DIZ PEDRO AYRES MAGALHÃES:

 

BIOGRAFIA DE MYLENE:

O Inesperado Bálsamo

- Que dizer, quando chega do Brasil um disco com tantas canções que escrevi, cantadas por uma voz feminina e aquele sotaque que o português ganhou no Hemisfério Sul?

Eu perguntei quem era a “moça”, aquela que espalhou num estúdio de gravação as guitarras e as percussões, o acordeão e o violoncelo e aprendeu de ouvido as canções do Madredeus, cujas partituras nunca foram publicadas, e decidiu ensinar-me os ritmos do Brasil dos Estados e das regiões, com um disco novo…:- Quem era a “moça”, que ouvira um samba no “Pomar das Laranjeiras” e me mostrava o ritmo que chama o “ Oxalá “ no terreiro?

- Será que eu a devo conhecer, ou deixar-me só a imaginar que é uma “moça” do Brasil, uma de entre os milhares que assistiram aos concertos do nosso grupo no Brasil, ou a quem ofereceram um dos nossos discos?

- Será que ela prescrutou a nossa fantasiada “voz do pensamento”, dos indefinidos dizeres de amor e palavras de crentes, das orações e textos votivos que nos atrevemos a escrever, a musicar e a cantar sempre que nos deixaram…e agora promoveu esta “devolução”, esta tradução transatlântica, com tanta naturalidade e devoção?

- Ela, a “moça” que eu não conheço, convidou uns “craques” para tocarem de novo aquelas canções em estúdio, com as palavras e o timbre da voz à frente de tudo, como deve de ser, empregando os ritmos do Brasil e os violões com tanta arte, uma lição do “ Cool ” do Novo Mundo, suave, “ groovy” tão bem tocado, tão bem feito, tão imaginativo, gostei tanto, que inveja, como eu gostava de tocar assim, que dirão as outras pessoas quando chegarem a ouvir esta música?

- Será que ela conseguirá pôr este disco em cena, transformar o livro musical em concerto? – E se o conseguir como será ? Uma companhia itinerante, de cidade em cidade, uma temporada numa sala, um concerto único? E como será o palco dos ritmos e das canções, será que ela dança, farão um baile, que dirá ela entre as canções, dirigindo-se ao público? – Ah, eu gostava de saber, gostava de assistir, para conhecer o resto daquele mundo, que não é bem o nosso, que tem uma expressão diferente, mas afinal tão familiar,tão expressiva, tão doce.

Quanto ás versões das nossas canções que a Myléne apresenta em “ Não Muito Distante”, elas são, na minha opinião, exemplares de fidelidade ao original, e uma bem vinda expressão do maior sonho que eu sonhei, que foi o de criar novas canções para todos os “falantes” da nossa língua, oferecer em vida melodias e enredos de palavras que pudessem entreter a alegria, a esperança e o tempo de quem tem tempo e necessidade de pensar o Invisível, e assim chamar o amor à vida na Terra, procurando ler os sentimentos e descobrir os duros segredos da dádiva de Si…

E então, só queria “aproveitar para agradecer a preferência”, desejar o maior sucesso a esta obra, e muito principalmente a esta dedicada cantora; percebi, andando a pé com a minha música, que este mundo está cheio de pessoas nossas “desconhecidas” que entendem o que nós fazemos, e discretamente nos aprovam, aplaudem e protegem com o seu carinhoso interesse e atenção.

Myléne, sejas tu quem fores, oxalá te divirtas e gozes muito com a nova e tropical vida que deste a estas canções, e só me ocorre desejar-te que tu e os teus amigos viagem com a vossa arte de fazer música, por todos os continentes.

Obrigado, muito obrigado, pelo comovente presente que tu me deste, no dia em que o teu disco chegou pelo correio. Sem o poderes adivinhar, deixaste o melhor dos bálsamos, para este cansado viajante.

- Deus te Guie !

- Bonne Route!

Pedro Ayres Magalhães

Lisboa,13 de Maio de 2007

 

A cantora e compositora brasileira Mylene, em seu segundo disco, intitulado “Não muito distante”, faz uma releitura das canções dos Madredeus sob a ótica da diversidade rítmica brasileira.

O repertório das belas canções - que abarca praticamente todas as fases por que passaram o grupo -, tão português em sua essência, na voz íntima, intimista e elegante de Mylene se transforma em cânticos africanos, lamentos dos índios, e modinhas à moda da casa, sonoridades que, ao longo de tantos anos, vieram a formar a chamada Música Popular Brasileira, reunião da ginga das três raças brasileiras, os negros, os índios e os portugueses, tão diferentes entre si, numa sonoridade única no Mundo.

É um fascinante universo, onde o ouvinte se perde ao buscar onde começa e termina Portugal, e onde este se funde ao Brasil, e como estes se complementam.

É como se aquelas canções tivessem mesmo sido compostas numa tarde “bossa nova” ao som do mar de Copacabana ou Ipanema, ou pelos sambistas das favelas do Rio de Janeiro nos longínquos anos 30, ou pelas lavadeiras que cantam nas novenas religiosas do Nordeste do Brasil, ou pelos pretos nas senzalas quando clamavam aos orixás pela sua liberdade, ou ainda pelo povo que marcha em coro nas passarelas festivas do Carnaval.

Mylene tem seu primeiro disco editado no Brasil e nos Estados Unidos, onde mistura influências da Música Popular Brasileira com ritmos afro-brasileiros, tendo como panorama a música eletrônica. Com esse trabalho, a cantora foi selecionada para o 6º Prêmio Visa MPB - Edição Compositores, concorrendo ao lado de consagrados nomes da música nacional. Também foi citada nas revistas americanas Interview e Rolling Stone, obtendo críticas extremamente favoráveis em magazines como Downbeat, World Beat Canadá, San Diego Union Tribune, San Fracisco Chronicle, Shepard Express e All About Jazz .

Em 2005, participou como vocalista e letrista de um projeto chamado Télépathique, onde compôs música eletrônica com o DJ brasileiro de breakbeat e funk carioca, DJ Periférico, produtor que trabalhou no disco de remisturas do filme “Cidade de Deus”. Editaram o álbum, “Last Time on Earth”, neste mesmo ano em Portugal e excursionaram por todo o país e outras cidades da Europa.

Edita a 11 de Julho de 2007, pela Editora Fenda, seu primeiro romance, “O amor que tu me tinhas”.

 

 

 

 

 

 

 

NÃO MUITO DISTANTE:

 

AS CANÇÕES, UMA A UMA:

     

Mylene é uma cantora brasileira, carioca de nascença, mas portuguesa de alma. A sua paixão pela música portuguesa fê-la criar, a partir de terras brasileiras, um conjunto de canções retiradas do repertório dos Madredeus e assim canta para retribuir o afecto e homenagear a terra que lhe é tão querida.

Sua próxima estação é musical e chama-se Não Muito Distante.

Pouco a pouco a idéia ganha forma e a forma ganha conteúdo, as suas raízes agarram agora o solo português para uma nova aventura.

Escolheu Lisboa para viver e a capital encaixa como uma luva nas suas aspirações, o seu caminho cruza-se com a história contemporânea de Portugal.

Encontros musicais, encontros poéticos, a Lisboa mestiça, a Lisboa africana e a Lisboa do Brasil, na sua imensidão, espelham a universalidade de Mylene.

O risco que é tornar um sonho realidade só o é quando se tenta, e o excelente grupo de músicos que acompanha a cantora são o trunfo deste trabalho.

Fernando Nunes, Ramiro Musoto, Tuco Marcondes, Adriano Magoo e Lui Coimbra exploraram e organizaram brilhantemente os 16 temas escolhidos por Mylene.

Os tambores baianos, o maracatu, a melodia sul americana, o bolero, o bossa-nova, o samba, a oração aos orixás do candomblé entranham-se, como mão e luva, nas melodias portuguesas, e nunca mais a largam ao longo do disco.

O grupo percorre vários mundos musicais até chegar a uma sonoridade perfeita e atravessa os temas dos Madredeus com uma suavidade indescritível. 

A voz de Mylene aquece a alma de quem a ouve e faz esquecer que estamos perante músicas arranjadas de um colectivo que abate fronteiras e espalha o perfume nos quatro cantos do mundo.

Ao ter atravessado dois universos distintos em seus dois projectos anteriores, o da música electrónica e o da Música Popular Brasileira, Mylene ganha uma dupla personalidade musical e entra agora no arquivo intemporal dos Madredeus.

Um disco para se ouvir vezes sem conta, faixa a faixa, poema a poema.

Por Zé Mª Forjaz Trigueiros

Lisboa, Abril de 2007

 

FICHA TÉCNICA:

A produção do álbum é assinada por Mylene e por um grande expoente do cenário musical brasileiro: o multi-instrumentista Fernando Nunes, baixista por opção, que atuou com Caetano Veloso, Zeca Baleiro, Ivan Lins, Rita Lee, entre outros. O álbum traz ainda a participação do percussionista Ramiro Musotto, argentino radicado no Brasil, profundo pesquisador e conhecedor dos ritmos folclóricos mundiais, do violoncelista Lui Coimbra, do acordeonista Adriano Magoo e do também multi-instrumentista Tuco Marcondes.

Mylene –  concepção, produção musical e produção executiva.

Fernando Nunes – produção musical, arranjos, violão de aço, violão de nylon, violão de 7 cordas, loop eletrônico e pratos.

Ramiro Musoto – Percussões ( Maracas, Atabaques, Claves, Derbaque, Unhas, Cabaças, Matracas, Tantan, Tantan Nagô, Pandeiro, Surdos, Tapinho, Berimbaus, Caxixis, Shakes, Bumbo, Alfaia, Tarol, Balde, Caixas, Triângulos, Zabumba, Block, Calimba, Choqualho, Lata, Cajons, Sons de MPC, Ganzás, Palmas, Bongô, Darbuka, Chauchas, Cuíca, Tamborim, Tambor, Reco-reco, Fósforo, Repique de mão, Vassoura, Pandeirola, Panelas, Abas e Tambor Rum ).

Tuco Marcondes – violão, cavaquinho, banjo, guitarra portuguesa, requinto, ukelele, gom jabar, auto-harp, dobro de madeira, bouzouki, violão de nylon e bandolins.

Lui Coimbra – violoncelos, violoncelo pizzicato, charango e rabeca

Adriano Magoo – acordeon e teclados

Tita Marques e Ângela Lopo: vocais

 

 

 

 

“Fado das Dúvidas” – Boi do maranhão + Eletrônica à moda do Fado

O Bumba-meu-boi, ao lado das escolas de samba do carnaval, é uma das maiores e mais densas expressões da arte popular brasileira, um tipo de ópera popular, um espetáculo em geral apresentado ao ar livre, com traços do folguedo medieval ibérico, face ao seu ritual, encenação e estrutura, ao desenrolar do drama e à sua musicalidade. Utilizamos o ritmo que se toca nessas festas, que aqui denominamos Boi do Maranhão, que leva em sua construção a marcação constante das maracas e as vozes em coro repetindo o refrão.

“Haja o que houver ”– Coroação de Reis num cenário romântico

“Vem (Além de toda solidão)” – Capoeira em terras estrangeiras

Utilizamos o ritmo chamado de Maracatu. “Haja o que houver” privilegiou o maracatu na sua sonoridade mais melódica, o Maracatu Cearense, caracterizado por ser mais lento e dolente daquele que se originou no Estado de Pernambuco, neste disco registrado em Vem (Além de toda solidão). O Maracatu era tocado nos cortejos africanos, que por sua vez imitavam os cortejos reais portugueses, onde os escravos coroavam seus reis e rainhas. Em “Vem”, ele foi tocado com seus instrumentos habituais: caxixis, shakes, bumbo, alfaia e caixas, mas também introduzimos alguns berimbaus, instrumento tradicionalmente utilizado na Capoeira, luta e dança africana muito comum no Brasil.

“O Sonho” – Forró + Guitarra portuguesa

“O Pastor” - Forró sem pés descalços

“A Quimera” – Xote acompanhado de Violoncelo Pizzicato e Batidas de Lata

O Forró constitui-se de vários gêneros musicais do Nordeste brasileiro de origem mestiça com influência indígena, africana e européia. Possui semelhanças tanto com o arrastar dos pés descalços dos índios quanto com os batuques africanos e com as danças de salão européias. Também conhecido como baião, que se diz teria nascido de uma forma especial dos violeiros tocarem lundu naquela zona rural, teve sua consagração através do grande artista Luís Gonzaga, e é tocado sempre com triângulo, zabumba e acordeon. Em “O Sonho”, juntamos a guitarra portuguesa e rabeca (também chamada de sanfona em Portugal). Em “O Pastor”, predominaram as frases dos violoncelos. E em “A Quimera”, o forró transforma-se em xote – uma das suas muitas variações -, com uma levada mais arrastada e contrapontos de banjo.

“O paraíso” – A Bossa-nova em batida de palmas de mãos.

Nossa homenagem à batida do violão de João Gilberto, acrescentada de palmas de mão. Procurei também gravar com uma voz grave, baixa e sussurrada, bem ao estilo dos cantores da Bossa-Nova.

“Alfama” – O Tango aterrisa na favela.

O bolero, que no Rio de Janeiro sofreu influências do tango, incorporando giros, caminhadas e fazendo com que os pares deslizassem pelo salão, influenciou bastante a chamada música pimba do Brasil, que muito se misturou com a música popular ditada pela elite. Com seus breques típicos, essa canção se transforma numa típica canção de botequim brasileiro, lugar onde o povo brasileiro chora o seu fado.

“A Confissão” – Samba + Choro de cuíca

“O Pomar das Laranjeiras” – Choro sem cuíca + Caixinhas de Fósforos

“Carta para ti” – Luís Gonzaga encontra o samba

Em “A confissão”, gravamos um samba mais lento, samba-canção, ponteado pelo choro da cuíca, instrumento bem tradicional desse ritmo. “O Pomar das Laranjeiras” ficou registrada como um chorinho. O chorinho surgiu da mistura dos ritmos africanos já enraizados na cultura brasileira, como o batuque e o lundu com as músicas estrangeiras que eram moda no Brasil Imperial. Utilizando instrumentos variados ao longo de sua vida, nessa faixa foi gravada à maneira antiga, com violão de 7 cordas, cavaquinho e pandeiro. Em “Carta para Ti”, o samba foi regionalizado, recebendo um toque nordestino (mouro) nas notas entoadas pelo acordeon.

“Não muito distante” – Brasil + Portugal = Eu queria mais alegria

Faixa título do álbum, Não muito distante é uma milonga. Originariamente canto e dança da Andaluzia, essa sonoridade sobrevive em algumas regiões do Sul do Brasil, dada a proximidade com a área há muito colonizada pela Espanha. Os milongueros, com a marcação do violão em notas repetidas em estilo mântrico, cantam como os fadistas, num jeito dramático de contarem suas histórias, com letras fortes como essa de Pedro Aires.

“A andorinha da primavera” – O Assum Preto, passarinho cego da seca, vem pular o Carnaval

As marchinhas de Carnaval descendem directamente das marchas populares portuguesas, partilhando com elas o compasso binário das marchas militares, embora sejam mais aceleradas e tenham melodias mais simples e vivas. Esteve no carnaval dos brasileiros dos anos 20 – tendo seu apogeu com Carmem Miranda - aos anos 60 do século passado, altura em que começou a ser substituída pelos sambas enredos das grandes escolas de samba.

“O menino” – Os índios + As cantadoras das novenas

Cântico católico à brasileira, influenciado na origem pelos cantos dos jesuítas. Por essa razão, acrescentamos percussão tocada à maneira indígena. Os vocais remetem às novenas católicas no nordeste brasileiro, onde as senhoras mais idosas se encontram até hoje para cantar e rezar.

“A cantiga do campo” – Filhos de Gandhi nos campos de trigo

“Oxalá” – Macumba de palavra árabe

Nossa homenagem ao Candomblé do Brasil. “A Cantiga do Campo” foi transformada em ijexá, um ritmo que se toca para alguns orixás específicos e permanece bem vivo e presente no estado de Salvador da Bahia. Oxalá foi gravada com o toque dedicado a este orixá, e aqui foi feita uma troca de sentidos com o significado árabe da palavra Oxalá, “que Deus permita”.

 

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