"Deixa-me ser como tu/Um raio de luz ardente/Deixa-me ser como tu és/Luz e Amor somente". O mítico canto dolente de Teresa Salgueiro encontra um contraponto radioso quando envia à plateia "Um Raio de Luz Ardente". Superada a aparente aridez própria de uma primeira audição, Madredeus começa assim a conquistar o auditório que testemunha a estreia mundial de "Movimento" numa inadequada e desconfortável tenda de circo. Em mais uma performance religiosa, não será exagerado sugerir que tanto artistas como público mereciam o ambiente de uma catedral, tanto mais que se travava do início da digressão nacional do grupo. No encore-apogeu quando muitos dos fiéis esperavam a chegada de "A Vaca de Fogo" ou de "O Pastor", os Madredeus apostaram na audácia do risco e optaram pela transcendência das desconhecidas "Vozes no Mar" ou "Tarde, por Favor". Durante um recital que se alongou para além de duas horas, o mais celebrado grupo musical português revelou as 16 faixas do mais recente disco (com precisos 77 minutos e 22 segundos), o segundo de estúdio desde a reformulação da formação. Uma gravação em que os quatro músicos Madredeus reverenciam a voz da "madredeusa" Teresa, reiterando o mote contínuo de um projecto conceptual marcado por uma coerência artística e uma dignidade estilística elogiáveis. A abordagem do novíssimo repertório foi precedida,em jeito de aperitivo, pelos êxitos "Os Dias São a Noite" e "Oxalá". Seguiu-se o convite para a entrada no "labirinto" solene, mas nunca parado de "Movimento". "O Labirinto Parado" que se insinua como a música de trabalho do CD, assente num balanço rítmico capaz de agradar mesmo aos viciados na música mais pop.

Horizontes luminosos

A primeira parte do concerto permitiu perceber que embora não abdicando da sua herança musicalmente fadística, o imaginário dos Madredeus abre janelas para horizontes mais luminosos e optimistas. A austeridade soberana das plangentes canções sobre a saudade e as perdas afectivas, bem sublinhadas pelo ensemble de guitarras (que tão bem se sente em "A Quimera") tende a ser devassada por "Um Raio de Luz Ardente" de esperança e mudança. O lamento pungente retido em "A Lira-Solidão no Oceano" -que confere a Teresa um ensejo de suprema interpetação, é amplamente compensado por essa contagiante declaração de amor pela vida de que "O Segredo do Futuro" se fará porta-voz já na recta final da prestação, com guitarras terrenas soando divinas harpas. Em termos de espectáculo - o termo chega a ser redutor quando se presencia uma celebração do Madredeus - a apoteose chegou quando António Vitorino de Almeida afinou o seu piano para "As Brumas do Futuro", música da banda sonora do filme "Capitães de Abril", tema que encerrou a primeira parte. Contudo a segunda parte - que revisitou o apaixonante "O Pomar das Laranjeiras" e a épica "A Tempestade" instalou tranquilas bonanças Nesse segmento o lirismo alcança momentos de puro fascínio seja na bucólica inocência de " Vida Boa" - mimosa canção de roda...- , no esboço sinfónico entrevisto em "Palpitação" ou no encanto da sereia de "Vozes do Mar", susceptível de transformar o mais renitente dos ouvintes num bravo e corajoso Ulisses. Inspirados por esta citação, podemos escrever que a Odisseia dos Madredeus prossegue a sua navegação nos oceanos do comprazimento. E indicia, além do mais, ter começado a superar a nostalgia dos timbres do acordeão e do violoncelo. Uma das mais valias do actual repertório pode ser a plena integração dos devaneios do teclados na solenidade das guitarras. Esse entrosamento exibe-se especialmente em "Ecos na Catedral, em que o sintetizador pilotado por Carlos Maria Trindade espanta a aura de uma ressonância "new-age" e atinge o estatuto de uma harmonia co-protagonista com o poder melódico de excelsas guitarras.

Texto de Daniel Guerra
Correio da Manhã, Abril de 2001

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