A gravação de Movimento estava concluída desde Janeiro do ano 2000, mas a edição da Antologia fez com que o novo álbum de originais só agora tivesse sido lançado no mercado. Entretanto, os Madredeus voltaram no ano passado à estrada, para uma digressão que os levou a diversos pontos da Europa e da América. Nada de novo para uma banda que desde há algum tempo se tem afirmado como um fenómeno impar de popularidade além-fronteiras.

As digressões, aliás, têm feito parte do quotidiano do projecto liderado por Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães. E essa experiência de deambulações constantes foi, até, um dos principais pontos de inspiração para os dezasseis temas que compõem o álbum Movimento. Sem grandes novidades em termos musicais, os Madredeus centram essencialmente este seu novo trabalho na revisitação das mesmas ambiências a que anteriormente nos habituaram mas onde as referências à musica tradicional portuguesa surgem cada vez mais diluídas, seguindo a linha que encetaram há quatro anos, com Paraíso, quando passaram a integrar na sua formação os músicos José Peixoto, Carlos Maria Trindade e Fernando Júdice. Teresa Salgueiro volta a dar voz a temas dominados por uma forte espiritualidade. Em entrevista ao Expresso, Pedro Ayres Magalhães fala sobre o novo projecto dos Madredeus, que desta vez é apresentado essencialmente em território nacional, numa tenda gigante. A banda volta a actuar esta noite no Porto (Parque da Cidade), onde repete o concerto a 12, 13 e 14 de Abril. Depois, os Madredeus seguem para Lisboa, onde actuam (Parque das Nações) a 19, 20, 21, 24, 27 e 28 de Abril. Os concertos contam com a participação do maestro Victorino de Almeida.

Este disco parece reflectir muito a vossa vivência na última década, ou seja, o facto de os Madredeus terem passado largos períodos de tempo em digressões. Tudo isso está muito presente ao longo dos diferentes temas do álbum...

Pedro Ayres - Está, mas este disco não é autobiográfico. Há uma coreografia nos Madredeus, a sombra por trás dos músicos, a mulher à frente e de pé, sem conversar com o público, o que diz é apenas cantado. A Teresa é uma «actriz» que se investe no papel da cantora daquele grupo. O álbum é uma construção plástica. Trata-se da dramatização da reflexão daquela personagem, dentro daquela coreografia. Algumas canções foram feitas com essa ideia da própria personagem reflectir junto do público — que já a viu antes — sobre o que terão sido as viagens na sua vida. Como se a sua personagem tivesse memória. O que tem piada...

E o que é que essa vivência das viagens vos trouxeram de diferente, como é que elas vos influenciaram?

Pedro Ayres - Quando se passa a viajar com normalidade — com concertos dia sim, dia não, ou em dias seguidos, sempre em grandes teatros, sempre em ocasiões muito importantes — começa-se a ficar um pouco afastado da importância que o concerto assume naquela cidade, e então passamos a tentar disciplinarmo-nos de forma a podermos todos os dias tocar bem e conseguirmos transmitir uma boa índole, uma grande tranquilidade. O que é uma arte completamente diferente daquela de criar uma grande situação, um grande espectáculo. Não se pode ligar ao êxito, isso é a grande sensação das digressões, o êxito passa a ser parte do que os países nos oferecem. Depois, há outra coisa, que é o isolamento da cidade natal. Isso também está fantasiado numa canção. Nenhum ser humano gosta de andar desvergado, sem origem. Acaba-se por criar uma espécie de metáfora, um país interior feito do que gostamos, das pessoas que recordamos... É aí que se vão beber as ideias para criar as novas músicas.

A distância fez com que mais facilmente se apercebessem das diferenças culturais, que sobressaíssem os traços da vossa identidade que os torna diferentes dos outros?

Pedro Ayres - Em relação a este novo concerto dos Madredeus, foi-me mais fácil seleccionar temas para as letras das canções. Fi-lo com mais certeza do que no passado, como se a distância desse a clareza daquilo que pode ser sublinhado num certo momento. A distância facilita a percepção das diferenças, por exemplo, entre o que são as nossas memórias e o que são as culturas que encontramos. Nesse confronto, seleccionam-se as coisas mais relevantes no contacto com a outra cultura. Nesse sentido, sugiro que encarem este concerto como o mais universal que os Madredeus já alguma vez fizeram. Nele, levo mais longe o trabalho que comecei a fazer a meio da década de 90, com o Espírito da Paz, tentando escrever em português, mas de uma forma mais universal, que seja traduzível em todas as línguas, que se refira a coisas que toda a gente possa perceber...

«O Segredo do Futuro» tem inerente uma mensagem de fraternidade?

Pedro Ayres - É. E de alteridade. Uma mensagem de como a ideia do outro é importante. Em Portugal, era óptimo que todos os professores e até os governantes, com alguma modéstia, dessem a entender esse jogo que é a construção do outro, porque as pessoas presumem muito em Portugal. O governante presume sobre o público, o público presume sobre o governante, o eleitor presume sobre o partido... Não há um verdadeiro contacto, uns e outros não se dão a conhecer, por um medo ou uma desconfiança secular. O que não é uma maneira de sobreviver sem derivar em grandes desastres. É incrível como é que toda a gente percebe a mensagem dessa canção, no Brasil, no México... A fórmula é muito afirmativa.

Apesar de todas as mudanças, o ponto de partida da vossa música continua a ser a utilização de elementos da música tradicional portuguesa?

Pedro Ayres - O ponto de partida, hoje em dia, já é muito mais a história do grupo e o seu próprio repertório. O ponto de partida, mais do que nunca, é o repertório de guitarra do mundo inteiro, brasileira, clássica italiana e francesa, a guitarra do fado, a guitarra rock, a guitarra country, do blues, o alaúde magrebino... É a partir daí que construímos as nossas canções. O que está muito patente neste disco. «Um Raio de Luz Ardente» tem o «robato» do fado de Coimbra, mas não há nenhum fado de Coimbra assim. «A Capa Negra» tem uma pulsação rítmica quase do fandango ribatejano, mas depois tem uma parte que parece um «passe doble» espanhol. Há uma sugestão de ideias que nem sempre é formal.

Entrevista de Alexandre Costa
Expresso, 7 de Abril de 2001

 

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