Pedro Ayres Magalhães falou com o JN no terraço da Pousada de Santa Luzia, em Viana do Castelo. No dia anterior, acabava, em Ponte de Lima, a digressão nacional de "Movimento", o último disco dos Madredeus. Durante a conversa, falou da história da banda, que considerou ser "bonita como uma canção", e teceu críticas ao sistema, por dificultar aos criadores portugueses a divulgação dos seus trabalhos, "caso único na Europa", assegurou.
"Esta foi a digressão mais extraordinária do grupo. Levou-nos a várias capitais, de Atenas a Londres, Varsóvia e, mesmo, a países novos, como a Eslovénia. Foi muito importante", asseverou.
Relativamente ao disco, editado em simultâneo em 30 países, disse que representa uma fase nova: "Os elementos que integram a banda são os mesmos que gravaram "Paraíso", mas achamos "Movimento" um disco diferente. Entendo que abre uma nova fase na carreira do Madredeus".

Grupo invulgar

Referindo-se ao percurso do grupo, com nove álbuns gravados em 15 anos e três milhões de discos vendidos em todo o Mundo, Pedro Ayres Magalhães considerou os Madredeus um grupo "invulgar": "O seu nascimento foi sensacional. Foi uma fase que marcou muito a banda em Portugal. Depois disso, temos sentido dificuldade em divulgar a nossa música. Fazer com que o público conheça a evolução dos Madredeus".
Ao salientar que existe uma "notória falta de espaço" para a divulgação da música portuguesa, considerou tratar-se de realidade "dificilmente aceitável" e extensiva, também, ao teatro, cinema e artes plásticas.

Gravações

Quanto às prestações ao vivo do grupo, disse que os Madredeus têm agendadas nove datas em Espanha, entre Outubro e Novembro, dando por terminada no país vizinho a tournée de "Movimento". Entretanto, no horizonte próximo da banda está a gravação de um disco, com orquestra, na Bélgica. Ainda em relação a discos, revelou que a EMI inglesa mostrou-se interessada em remisturar faixas do grupo. Sobre a proposta, considerou que o futuro álbum pode trazer alguma notoriedade para a banda, nomeadamente, em mercados "difíceis", como os EUA e a Inglaterra. "O nosso prestígio na Europa só agora é que começa a ser deglutido pela ilha britânica", considerou.
Evidenciou, a propósito, que se trata da segunda experiência do género da banda, precedida de "Ambiente Pacífico", datado de 1994, da autoria de Jah Wobble, ex-baixista dos Public Image Ltd.

Texto de Luís Oliveira
Jornal de Notícias, 17 de Setembro de 2001

 

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