É estranha e disforme a forma como sobe,
Nas alturas, nesta altura,
O calor...
Sem brisa nem prenúncio,
De chuva,
De nuvens.
Não me lembro delas nem da sombra do mar.
Delas, a minha no cais,
Picada por gaivotas,
Riscada por barcos laranja,
De um lado para o outro,
Com gente dentro, muitas, juntas,
Em silêncio.
Nestas alturas,
Verão em Lisboa,
O melhor seria não estar,
Aqui, mas noutro lugar,
Onde odiaria estar, senão aqui.
Não penso. Cansa. Não é altura.
Não é estação.
A dos barcos, de mármore fresco, só, sem alma.
As pessoas, a multidão com calor, afogueando,
Atravessando a cidade,
De outra para esta, margem,
Em silêncio, sem brilho, com reflexo.
-“Está na altura!” alguém diz certamente,
de forma estranha e disforme,
assim como se movimentam as pessoas,
e se cruzam,
como sombras no cais,
picadas por gaivotas e riscadas por barcos,
na cidade, sem alturas para falar, sem alturas para se ver.
Está calor e não é altura para pensar.

 

De olhos fechados, o mar não se ouvia.

A música em fundo, o tempo parado quase envelheceu,

Nas nossas horas, a nossa indiferença,

Culpando-me do cansaço, da tortura da espera.

Faz-me entardecer antes do pôr-do-sol,

Quando a chama se extingue, molhando a terra ardida,

O amor que já não lembra, do tempo que passou, que queimou.

 

aquelas pequenas coisas

que no teu dia de sol voam

tão depressa falam suavemente

em braços descobertos e calor

à noite junto ao rio

descobrem-se e riem

como ondas molhando o cais

como  ondas do teu cabelo

como ondas no ar

levando o teu som ao meu mar

aqueles dias de verão

num inverno interminável

num momento de vários instantes

minutos contados ao segundo

descendo a avenida

quase voando

quase cantando

quando chorando

molhando a cara

salpicando o dia

como ondas na beira mar

como ondas e espuma nos pés

o teu corpo feito em curvas

sentidos ascendentes e carnais

sem resistências

eu

a mim próprio

a ti

numa onda de excitação

numa vaga de vontade

numa maré de bem querer

num mar de sentidos

num oceano maior que nós

numa lágrima não contida

escutando

tocando

mergulhando

emergindo

acariciando

como um onda.

 

Em ti, ser é estar, em fogo,
Queimando páginas retorcidas de sentimentos
Rasgar, num só golpe, a carne que nos une,
Na noite quente, suavizada pela brisa,
Vendo a lua, na bruma centenária de uma árvore,
Amando, vociferando contra o passado,
Cruel, mas morto para nós.
Por ti, correndo em tua pele os meus dedos,
Temerosos de ferir, querendo agarrar,
Deixar fugir, em silêncio, da rua vazia,
os pássaros voando, aqui, desde o rio, sem parar,
sem um rumor de ti.
É o feroz medo de estar aqui, neste mundo, só,
Ouvindo a  sala vazia ranger no escuro absoluto,
Desprovido de risos, deixando degraus vazios,
Marcados por passos ausentes,
Deixando antever o fim das horas e as horas de chuva,
Ao arrepio de quem declama como ninguém,
Por não existires, neste momento, em mim.
Depois da  luz da manhã mais bonita de Lisboa,
O mar batia, saltava e reclamava da tua insolência,
Zombando de tanta inocência,
Por amares sem culpa, verdadeiramente,
Entregando o teu corpo, sem reservas.
O meu interesse por ti, sou eu mesmo,
Ancorado no mar mais profundo,
De vigia na barra às ondas do teu cabelo,
Tatuados levemente, sempre que o dia reaparece,
Descobrindo a cama, já vazia,
De movimentos de paixão, louca.
Agora, nada mais interessa tanto, nem é mais interessante,
Do que o meu interesse por ti.

 

Vem a mim

o prenúncio do mundo.

Reticente,

suspirando magoado

da calmaria da luz...

Volátil, efémera,

a premência fugaz,

o torpor esquecido

de amar...

Eterna procura frustrada,

audaz de intenção

de altiva atitude,

sobranceira

mas triste,

negando o seu reflexo,

soletrando magnífico e vil

a pena de estar só,

aqui...

Na cidade vazia de Agosto

por margens iluminadas

o lusco-fusco das ausências.

A noite quase queima

os horizontes indistintos,

os caminhos da tua alma...

Sem rumores nem os queixumes,

ténues e opacos,

não vislumbram

as incertezas e os medos,

descobertos,

decifrando,

o outro lado do mundo.

 

A voz é o primeiro reflexo de alma,
mas confunde,
quem se perde.
E tu, andas à procura de ti lá fora,
procurando no silêncio, um espelho,
e os olhos, o segundo reflexo,
de apenas o que queres ver,
num vidro embaciado,
nem da gota imóvel,
se vislumbra a transparência,
de quem não quer ser descoberto.
E ris.
E tremes.
E coras,
choras,
desculpas-te de nada ser o que parece,
pois não parece ser nada,
nada mais do que possas dizer,
nada mais do que possas esperar,
e cegas-te dizendo que vês.

 

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