Os sons ecoam no labirinto dos meus sonhos
as palavras transformam-me em peregrino da saudade.
Descubro a força da alma
em poemas musicados que me fazem sentir vivo
águas correntes, de um ser que se renova
pássaros sonhadores, que navegam pelo mundo
à procura do caminho, da esperança
e do encanto de cada alvorada.

É difícil explicar por palavras a minha ligação à música dos Madredeus, o meu relacionamento com o universo de sonho, emoção e fascínio, evocado por esta música que cedo aprendi a amar, a pensar, a guardar em mim.

Emoção é talvez uma das melhores palavras para dizer o que sinto ao respirar esta música, ao absorver cada nota, cada palavra, cada instante de plena e pura fascinação. Quem sente a música dos Madredeus sabe muito bem do que falo e não pode achar estranhas estas minhas palavras comovidas.

A música dos Madredeus apela à emoção, ao mais íntimo do meu ser. É como se uma ave tivesse vindo visitar o meu coração e nele tivesse ficado para sempre, uma ave enviada por Deus para dar voz ao meu sentir. Uma ave que canta, sussurrando-me a vida e que trouxe consigo pequenas sementes prontas a germinar. Lentamente, essas sementes foram crescendo até florir, nasceu então dentro de mim um imenso jardim, O Jardim das Emoções.

Ao percorrer o meu próprio jardim torno-me diferente, mais sensível, mais generoso, mais humano. Percorro-o a toda a hora, preciso de sentir o coração a cada instante e perder-me no labirinto das emoções. Preciso de percorrer cada recanto deste meu éden, ver nascer e morrer cada flor, ver brotar e murchar cada sentimento. Sim, este jardim é onde planto todos os meus sentimentos, onde colho as alegrias e as tristezas e todas as emoções.

A minha vida mudou a partir do momento em que ouvi o primeiro acorde, em que escutei as palavras e os sons dos Madredeus. Renasci! É bom poder renascer e voltar outra vez àquela inocência pura e genuína que nos caracteriza quando somos crianças. É bem verdade que nasci na manhã do dia 8 de Abril de 1977, na cidade do Porto, numa manhã fria e chuvosa, mas também é verdade que renasci uns anos mais tarde ao escutar e sentir a música dos Madredeus. Despertei para uma nova vida, uma vida renovada, ao aperceber-me do que realmente é importante: o amor e a partilha, pensar e sentir.

Compreendi e interiorizei a mensagem desta música que facilmente se impôs dentro de mim. Não sei o ano, nem o dia em que isso aconteceu, sei apenas que foi instantânea a minha fascinação por esta música. Lembro-me apenas de ter sonhado ao ouvir pela primeira vez um tema dos Madredeus. Estava na praia e "O Pastor" tocava numa estação de rádio. Olhei o mar ainda com mais atenção, concentrei-me na melodia que ouvia e percebi melhor a minha alma, o meu ser. O meu coração bateu mais forte, tão forte como quando me apaixonei pela primeira vez e me rendi aos encantos da paixão. Paralisei ao ouvir "O Pastor", de tal forma que não consegui perceber quem eram os seus autores. Interroguei-me acerca de quem seria capaz de produzir tal som, tão bela melodia, algo nunca escutado na música portuguesa.

Uns dias depois, coincidência ou não, a minha mãe ofereceu-me um disco estranho cor de fogo, que me incendiou de emoção. "Existir" era o seu nome. A partir daí a música dos Madredeus passou a "Existir" em mim, passou a alimentar todo o meu corpo e toda a minha alma. Gravei-a no meu coração! Aprendi a imaginá-la e a percorrê-la mesmo sem a escutar.

Do álbum "Existir" até "Os Dias da Madredeus" foi um pequeno passo, uma questão de dias. Foi o tempo necessário à descoberta de que o grupo com a melhor música que eu alguma vez havia escutado, editara já um primeiro álbum e que "Existir" era afinal o seu segundo trabalho.

Os Madredeus conseguiam as suas primeiras conquistas, iam cativando cada vez mais pessoas, iam aparecendo cada vez mais concertos e ao fundo do túnel vislumbrava-se a luz da internacionalização. Passei a viver com entusiasmo essas conquistas, como se a mim também me pertencessem. De facto, quem ama verdadeiramente a música dos Madredeus, parece pertencer-lhe. É como se os elementos do grupo e todos os seus seguidores pertencessem a um grande clã, a uma grande família unida pela música. O surgimento de cada novo álbum dos Madredeus é motivo de grande satisfação para mim e estou certo de que também o é para as muitas pessoas por esse mundo fora que se deixaram encantar pela sua música.

"Existir", "Lisboa", "O Espírito da Paz", "Ainda", "O Paraíso", "O Porto", "Antologia" ou "Movimento" ajudaram a consolidar o ambicioso projecto iniciado com "Os Dias da Madredeus" no já distante ano de 1987. A música dos Madredeus é tão humana que soube evoluir e amadurecer, tal como um ser humano consciente o faz, ao longo da sua vida. É com emoção que falo deste amadurecimento próprio do ser humano, dos caminhos que escolhi, dos que recusei e dos muitos que espero vir a escolher ao longo da minha existência, uma existência ainda curta, mas intensa, sentida e emocionada.

Através da música dos Madredeus alcancei muitas coisas bonitas: aos Madredeus devo grande parte da minha inspiração; graças aos Madredeus fiz amigos puros, verdadeiros, Beto, Corvinus, Esther, Isabel, Kristina, Lucía, Marce, Rasa e Rita - obrigado por continuarem a iluminar os meus dias com a vossa amizade e dedicação; aos Madredeus tenho ainda de agradecer os muitos caminhos que decidi seguir e explorar ao longo destes últimos anos, bem como, uma nova forma de pensar, sentir e agir, que foi germinando dentro de mim, alargando e embelezando o meu jardim interior, O Jardim das Emoções.

É um retracto emocionado e apaixonado este que faço de mim e dos Madredeus, imparcial e tendencioso dirão algumas pessoas menos familiarizadas com esta música. Peço desculpa a quem não o compreender, mas é o único que neste momento sou capaz de fazer e sentir, o único capaz de espelhar nos meus olhos o verde do mar e no meu coração a beleza do amor e da saudade, o único capaz de me fazer viver e sentir vivo.

 

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